segunda-feira, junho 13, 2011

Futurar



Poema do alegre desespero


Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?




António Gedeão

Mudar

A REVOLTA DAS FRASES: Roubaram-lhes as consoantes mudas!:


Roubaram-lhes as consoantes mudas!

Coitados!
Estão inconsoláveis.

Já as mortes das sonoras vogais,
Que diariamente engolem,
Fora e dentro dos telejornais,
Não lhes bolem
Com os nervos nacionais!

Já a morte constante,
Gotejante,
A sangria
Fina e fria
Do vocabulário,
Necessário
Para da vida saber
E a dizer,
Não incomoda.

Está na moda
A correria.
Meia palavra aldrabada,
Mal soletrada,
Chega perfeitamente
Para entupir a mente
E desgraçar o dia.
Maria Almira Soares

Embora  goste das ditas consoantes mudas, que a mim me ajudavam a abrir as vogais vizinhas que não apresentam acento gráfico mas correspondem a sons mais claros (acção não soa como ação, no meu ouvido interior), adorei a poesia, e não posso estar mais de acordo com a mágoa do definhar do léxico corrente.
Escassez de vocabulário representa poucas tonalidades nas ideias e sentimentos que as palavras epresentam. Vidas mais pobres e descoloridas... mentes entupidas? Do mal o menos: se assim for ainda há esperança, um dia transbordam!

Fluir



Chega de Saudade, do álbum saído em 1959, pleno de Bossa Nova, graças à voz de Elizeth Cardoso e ao violão de João Gilberto, criador de novas cores da emoção, e que hoje faz 80 anos.
A letra é de Vinicius de Moraes e a música de António Carlos Jobim. Ler e ouvir mais aqui

Verler

A leitura enche de pétalas a imaginação (ilustração de  Svetlana Rumak)
De um maravilhante blog, Lecturimages, a que cheguei por pétala partilhada pela Paixão Pinto, grande verleitora :).

domingo, junho 12, 2011

Lavar cidades




Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar  

Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores  

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas  

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro  

Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata  

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar  

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais  

Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas  

Leva nas águas as grades
...  

Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo  

Tejo que levas nas águas


Manuel da Fonseca 

Ler

Foto de Paulete Matos, 2011. Partilhada no Facebook

sábado, junho 11, 2011

Zahir


O Zahir   
(...) 
Antes de 1948, o destino de Julia talvez já me tenha atingido. Terão de alimentar-me e vestir-me, não saberei se é tarde ou manhã, não saberei quem foi Borges. Qualificar de terrível esse futuro é uma falácia, já que nenhuma das suas circunstâncias terá significado para mim. O mesmo valeria sustentar que é terrível a dor de um anestesiado a quem abrem o crânio. Já não perceberei o universo, perceberei o Zahir. 
Segundo a doutrina idealista, os verbos viver e sonhar são rigorosamente sinônimos; de milhares de aparências, passarei a uma; de um sonho muito complexo a um sonho muito simples. Outros sonharão que estou louco, e eu com o Zahir. Quando todos os homens da terra pensarem, dia e noite, no Zahir, qual será um sonho e qual uma realidade, a terra ou o Zahir? Nas horas desertas da noite ainda posso caminhar pelas ruas. A aurora costuma surpreender-me num banco da praça  Garay, pensando (procurando pensar) naquela passagem do Asrar Nama, na qual se diz que o Zahir é a sombra da Rosa e a rasgadura do Véu. Vinculo essa opinião a esta notícia: para perder-se em Deus, os sufis repetem seu próprio nome ou os noventa e nove nomes divinos até que eles já nada querem dizer. Eu desejo percorrer esse caminho. Talvez acabe por gas­tar o Zahir à força de pensar e repensar nele; talvez, por detrás da moeda, esteja Deus. 
Jorge Luís Borges
Texto integral aqui 

Segundo a tradição islâmica, o Zahir é algo ou alguém que acaba por dominar completamente o pensamento, sem que se possa esquecê-lo em momento algum.

sexta-feira, junho 10, 2011

Camões de Dia


 in Traz outro amigo também 

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

Dia de Camões




Quem faz injúria vil e sem razão, 
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, canto VIII

domingo, junho 05, 2011

Esperançar

De Oblogouavida

Ladrões de Bicicletas: Reflexão esperançada: "Helena Garrido diz que a 'Grécia é a nossa bola de cristal'. Formulação certeira. O pior é o que vem a seguir: "Se não quisermos que o presente da Grécia seja o futuro de Portugal temos de cumprir rigorosamente o acordo assinado com o FMI e a com a UE." O governo pode tentar controlar a despesa e assim cortar nos rendimentos e na procura. Ao fazê-lo, porém, contribui para a recessão e para tornar o controlo do défice numa miragem. A ilusão de que se pode "cumprir rigorosamente o acordo" é a melhor forma de nos vermos gregos. A Grécia indica precisamente a inviabilidade destas intervenções externas, a incapacidade de uma economia atirada para uma violenta recessão em honrar estes "acordos" irremediavelmente volúveis. Imposições ao serviço do rentismo financeiro, com transferências maciças de custos sociais para a maioria dos cidadãos, têm de ser combatidas. Não são mais do que oportunidades para fragilizar a provisão pública e para recuperar a formulação míope de um capitalista norte-americano do início do século XX, que se conseguiu rebater institucionalmente durante algum tempo: "a melhor forma de garantir a eficiência dos trabalhadores é ter uma fila de homens à porta". Precisamos de uma multiplicação de sobressaltos cívicos que acelerem o fim das miopias e das ilusões, que tornem irresistível o princípio da transparência democrática, através da exigência de uma auditoria e da recusa em apoiar a banca sem contrapartidas de controlo público sobre este sector crucial, por exemplo. A esperança será sempre proporcional à robustez das propostas alternativas e à capacidade de se transformarem em novo senso comum. Muito ainda depende de nós.

(João Rodrigues, 04.06.2011)

sábado, junho 04, 2011

Se lo dije a la noche- Fragmentos canciones- poesía


YouTube - Juan Carlos García Hoyuelos -Se lo dije a la noche- Fragmentos canciones- poesía (47 minutos)
Aqui, Sumário das canções incluídas no CD, em todas as línguas ibéricas por este poeta catalão, editado em Burgos (2011). Curiosos? Há duas em português. Uma é um fado cantado por Ana Sofia Varela. A outra foi traduzida para português pelos Serviços Culturais da Embaixada em Madrid (?).
Uma das minhas preferidas é a 7ª, em asturleonês,  em que Anabel Santiago entoa Un adiós que dambos nun atalantemos (tonada).

DanZar

sexta-feira, junho 03, 2011

Transmutar-se



Discurso do Arquitecto Souto Moura ao receber o Prémio Pritzker (2011)






Exmo. Sr. Presidente dos EUA, Presidente do Júri, elementos do Júri, meus Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores,

Só quando recebi o convite dizendo “Eduardo Souto de Moura of Portugal” é que acreditei que tinha ganho o Pritzker 2011. Não posso esconder que fiquei feliz, por mim, pela minha família, colaboradores, amigos e clientes. Em nome de todos, os meus sinceros agradecimentos.

Aprendi a desenhar na Escola Italiana do Porto, cidade onde nasci, e no liceu decidi ser arquitecto. Não é que tivesse alguma paixão especial pela disciplina, mas na crise agnóstica dos 15 anos, duvidei se Deus devia ter descansado ao 7º dia. É que, pensando bem, ficou por fazer uma geografia como a de Delfos, a Acrópole para receber o Parténon ou secar um pântano no Illinois, onde a Farnsworth pudesse ficar.

Em 1975 depois da Revolução dos Cravos, comecei a trabalhar com o Arqº Siza Vieira. Não só pela arquitectura, mas sobretudo pela pessoa em si, foi uma experiência excepcional que ainda hoje continuo a fazer com o mesmo prazer. Saí do seu escritório nos anos 80, para ser arquitecto. Foi difícil começar, mas usar a sua “linguagem” parecia-me uma traição e mesmo que o quisesse, não o conseguia fazer, por pudor.

Depois da Revolução, e restabelecida a Democracia, abriu-se a oportunidade de redesenhar um país, onde faltavam escolas, hospitais, outros equipamentos, e sobretudo meio milhão de casas. Não era certamente o Pós-Modernismo, na altura em voga, que nos poderia resolver a questão. Construir meio milhão de casas, com frontões e colunas seria uma perda de energia, pois a ditadura já o tinha ensaiado. O Pós-Modernismo chegou a Portugal, sem quase termos passado pelo Movimento Moderno. É essa a ironia do nosso destino: “antes de o ser já o éramos”.

Do que precisávamos era de uma linguagem clara, simples e pragmática para reconstruir um país, uma cultura, e ninguém melhor que o proibido Movimento Moderno poderia responder a esse desafio. Não era só um problema ideológico, mas sobretudo de coerência entre material, sistema construtivo e linguagem. Se “arquitectura é a vontade de uma época traduzida num espaço”, Mies van der Rohe abriu-nos as portas na redefinição da disciplina tão massacrada até aí, pela linguística, semiótica, sociologia e outras ciências afins. O importante é que a arquitectura fosse “construção”, assim com urgência, nos pedia o país.

Com 10 séculos de História, Portugal encontra-se hoje numa grande crise social e económica, como já aconteceu em vários períodos anteriores. Hoje, como ontem, a solução para a arquitectura portuguesa é emigrar. Como dizia Paul Claudel: “Le Portugal est un pays en voyage, de temps en temps il touche l’Europe”. Resta-nos a “mudança”, como quer dizer a palavra “crise” em grego. Resta-nos decifrar o significado dos dois caracteres chineses que compõem a palavra “crise”: o primeiro significa “perigo”, o segundo “oportunidade”. Em África e noutras economias emergentes não nos faltarão oportunidades, o futuro é já aí. “Trabalhar na transmutação, na transformação, na metamorfose é obra própria nossa.” (1)

Muito obrigado.

Eduardo Souto de Moura

(1) Herberto Helder, “O Corpo. O Luxo, A Obra”

Traduzir



Page d'écriture

Deux et deux quatre
quatre et quarte huit
huit et huit font seize…
Répétez ! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l’oiseau lyre
qui passe dans le ciel
l’enfant le voit
l’enfant l’entend

l’enfant l’appelle
Sauve-moi
joue avec moi
oiseau !
Alors l’oiseau descend
et joue avec l’enfant

Deux et deux quatre…
Répétez ! dit le maître
et l’enfant joue
l’oiseau joue avec lui…
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu’est-ce qu’ils font ?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux
de toute façon
ils s’en vont.
Et l’enfant a caché l’oiseau
dans son pupitre
et tous les enfants
entendent sa chanson
et tous les enfants
entendent la musique
et huit et huit à leur tour s’en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s’en vont également.
Et l’oiseau lyre joue
et l’enfant chante
et le professeur crie :
Quand vous aurez fini de faire le pitre
Mais tous les autres enfants
écoutent la musique
et les murs de la classe
s’écroulent tranquillement

Et les vitres redeviennent sable

l’encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le port-plume redevient oiseau.

quinta-feira, junho 02, 2011

Acentuar



Cade Voce Morena
Onde estas miuda
Mina eu quero te encontrar
Onde e que estas chavala


Samba do Acordo Ortografico
pelas Vozes da Radio

Num dia em que o teclado avariou os acentos graficos...

Erguer-se




Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar 
Ai, Portugal, Portugal 
Enquanto ficares à espera 
Ninguém te pode ajudar

segunda-feira, maio 23, 2011

Acordar




Os manifestantes, reunidos na Praça do Rossio, conscientes de que esta é uma acção em marcha e de resistência, acordaram declarar o seguinte:


Nós, cidadãos e cidadãs, mulheres e homens, trabalhadores, trabalhadoras, migrantes, estudantes, pessoas desempregadas, reformadas, unidas pela indignação perante a situação política e social sufocante que nos recusamos a aceitar como inevitável, ocupámos as nossas ruas. Juntamo-nos assim àqueles que pelo mundo fora lutam hoje pelos seus direitos frente à opressão constante do sistema económico-financeiro vigente.

De Reiquiavique ao Cairo, de Wisconsin a Madrid, uma onda popular varre o mundo. Sobre ela, o silêncio e a desinformação da comunicação social, que não questiona as injustiças permanentes em todos os países, mas apenas proclama serem inevitáveis a austeridade, o fim dos direitos, o funeral da democracia.

A democracia real não existirá enquanto o mundo for gerido por uma ditadura financeira. O resgate assinado nas nossas costas com o FMI e UE sequestrou a democracia e as nossas vidas. Nos países em que intervém por todo o mundo, o FMI leva a quedas brutais da esperança média de vida. O FMI mata! Só podemos rejeitá-lo. Rejeitamos que nos cortem salários, pensões e apoios, enquanto os culpados desta crise são poupados e recapitalizados. Porque é que temos de escolher viver entre desemprego e precariedade? Porque é que nos querem tirar os serviços públicos, roubando-nos, através de privatizações, aquilo que pagámos a vida toda? Respondemos que não. Defendemos a retirada do plano da troika. A exemplo de outros países pelo mundo fora, como a Islândia, não aceitaremos hipotecar o presente e o futuro por uma dívida que não é nossa.

Recusamos aceitar o roubo de horizontes para o nosso futuro. Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.



Primeiro Manifesto do Rossio, Lisboa (Portugal) 2011