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quarta-feira, novembro 13, 2019

Mário Viegas e Manuela de Freitas dizem poesia do disco "Poemas de Bibe"...



Poemas de bibe (1990)
A grande poesia portuguesa (e os grandes poetas), escolhida para os mais "pequenos",mas não necessariamente poesia infantil...
Alinhamento do disco: 1. Eugénio de Andrade / Faz de conta 2. Eugénio de Andrade / Aquela nuvem 3. Sidónio Muralha / Eu tenho um cão 4. Antero de Quental / Pequenina 5. António Botto / Cantiga de embalar 6. António Ramos Rosa / Quem bate a uma porta de folhas na noite 7. Teixeira de Pascoaes / Canção final 8. José Gomes Ferreira / Chove 9. Eugénio de Andrade / O pastor 10. Eugénio de Andrade / Andanças do poeta 11. Camilo Pessanha / Vénus/II 12. Eugénio de Andrade / Frutos 13. Cesário Verde / De tarde 14. Miguel Torga / Brinquedo 15. Alexandre O'Neill / Periclitam os grilos 16. Pedro Oom / Actuação escrita 17. Mário Cesariny de Vasconcelos / Os anos felizes 18. Tossan / O sapo e o papo 19. Bocage / Epigrama 20. Eugénio de Andrade / Canção de Leonoreta 21. Luíz de Camões / Cantiga 22. Almada Negreiros / Rondel do alentejo 23. Camilo Pessanha / Rufando apressado 24. Fernando Pessoa / Não sei, ama , onde era 25. Fernando Pessoa/Alberto Caeiro / O guardador de rebanhos/XXXIII 26. Fernando Pessoa/Álvaro de Campos / O binómio de newton é tão belo como a vénus de milo... 27. Fernando Pessoa/Ricardo Reis / Para ser grande, sê inteiro: nada 28. Gomes Leal / Dedicatória 29. Mário Cesariny de Vasconcelos / Xácara das 10 meninas 30. António Nobre / O sono do João 31. Eugénio de Andrade / Romance de D. João 32. Sebastião da Gama / Descoberta 33. Eugénio de Andrade / Verão 34. Jorge de Sena / Poema desentranhado de 1 poema de Manuel Bandeira 35. Tossan / A morte do rato 36. Mário-Henrique Leiria / Cinegética 37. Mário-Henrique Leiria / Rifão quotidiano 38. Fernando Pessoa / Pia, pia, pia 39. Fernando Pessoa / Poema pial 40. Zeca Afonso / Balada do sino 41. Herberto Hélder / Ritual da chuva 42. Fernando Pessoa / Levava eu um jarrinho 43. João de Deus / Boas noites 44. Raul de Carvalho / Os meus poemas 45. Sophia de Mello Breyner / Coral 46. António Botto / Palavras de um roussinol 47. Jorge de Sena / Os paraísos artificiais 48. Florbela Espanca / Nas salas da embaixada 49. Matilde Rosa Araújo / Caixinha de música 50. Vitorino Nemésio / Até sempre 51. Ruy Belo / O Portugal futuro 52. António Botto / O mais importante na vida 53. António Aleixo / 5 quadras Disco na integra c/ detalhe de capa (53 poemas / textos)

LP
Mário Viegas e Manuela de Freitas ‎– Poemas De Bibe (LP) Porto - imagem 2

CD
Poemas De Bibe (Vinyl, LP, Album) album cover

sábado, setembro 03, 2016

Uma fiel dedicação à honra de estar vivo

Leitura obrigatória.
Por mim, prefiro sempre ouvir o Mário Viegas dizendo Sena, revivendo Goya, ao som fantástico da música de Luis Cília, apelando ao que em nós pode travar a barbárie.

"Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya"

Jorge de Sena



"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, porque tudo é possível, que ele seja

aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém

de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto

o que vos interesse para viver. Tudo é possível,

ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,

ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade

não tem conta o número dos que pensaram assim,

amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,

de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados,

e entregues hipocritamente à secular justiça,

para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,

a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes
roía as entranhas,

foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,

e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,

ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras

por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência

de haver cometido. Mas também aconteceu

e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,

aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.

Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,

foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha

há mais de um século e que por violenta e injusta

ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,

que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)

de ferro e de suor e sangue e algum sémen

a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém

vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa - essa alegria.

Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto

não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém

está menos vivo ou sofre ou morre  para que um só de vós resista um pouco mais

à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,

e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue,

tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão-de ser em vão. Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos

de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,

quem ressuscita esses milhões, quem restitui

não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes

aquele instante que não viveram, aquele objecto

que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã». 


E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida

para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,

da nossa carne que foi outra, do amor que outros
não amaram porque lho roubaram."


http://www.triplov.com/poesia/jorge_de_sena/carta.htm


sexta-feira, março 29, 2013

Manifestos


Dia 6 de Abril, a partir das 15h, uma tarde em Lisboa no Largo do Chiado em homenagem a Mestre Almada e à ideia de Ler em Todo o Lado
Morra(m) o(s) Dantas.
Pim!

terça-feira, maio 29, 2012

Jorge de Sena na voz de Mário Viegas



Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. 
Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.  
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.  
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. 
Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.  
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente â secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»  
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de urna classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido.
Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.  
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. 
Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.  
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.  
Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. 
Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável.  
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?  
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».  
E  por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

dito por Mário Viegas
música de fundo Luís Cília

sábado, abril 02, 2011

Mário Viegas, Um Rapaz de Lisboa


Quinze anos... já?

A garganta aperta de saudades
Do tempo das palavras das idades
Do sonho que inda somos nas cidades
Mesmo que às vezes sem grandes qualidades...

Estou como diz um outro Mário: a tua ida
É falsa, é mentira, uma partida
que nos pregou a sorte, e a distância
A tua voz ficou, o gesto, a boca
O olhar com que nos punhas a olhar-nos
E a ler outras maneiras de mudarmos
aquilo que alguns querem que entendamos
como o que tem de ser
Mas não tem, oh Mário, não tem de ser
que tu bem sabes
e nos sabes
bem.