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terça-feira, dezembro 31, 2019

Invencionáticos de todo o mundo, unamo-nos!


O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras fatigadas de informar. 
Dou mais respeitoàs que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo.Entendo bem o sotaque das águas 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática. 
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros, Poesia Completa

sexta-feira, novembro 14, 2014

As intimidades do mundo



Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a)Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b)O modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c)Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d)Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote tem salvação
e)Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f)Como pegar na voz de um peixe
g)Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.


Manoel de Barros

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Deslimites




A menina apareceu grávida de um gavião.

Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.


A mãe disse: Você vai parir uma árvore para



a gente comer goiaba nela.



E comeram goiaba.



Naquele tempo de dantes não havia limites



para ser.



Se a gente encostava em ser ave ganhava o



poder de alçar.



Se a gente falasse a partir de um córrego



a gente pegava murmúrios.



Não havia comportamento de estar.



Urubus conversavam auroras.



Pessoas viravam árvore.



Pedras viravam rouxinóis.



Depois veio a ordem das coisas e as pedras



têm que rolar seu destino de pedra para o resto



dos tempos.



Só as palavras não foram castigadas com



a ordem natural das coisas.



As palavras continuam com seus deslimites.







Manoel de Barros - Matéria de Poesia (1974)