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quinta-feira, setembro 14, 2017

Livro do dia IV - Salgueiro Maia

Salgueiro Maia : o homem do tanque da liberdade / José Jorge Letria, António Jorge Gonçalves

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"  

Salgueiro Maia, capitãoMadrugada do dia 25 de abril de 1974, Santarém, Escola Prática de Cavalaria

quarta-feira, setembro 06, 2017

Livro do dia. III - Para gostar de ler /Itaú


Era uma vez um filme que falava sobre a importância da leitura infantil na primeira infância. Um filme sobre ler histórias. E mudar histórias. O Itaú apresenta o documentário "Para Gostar de Ler”. Assista. Entenda. Leia para uma criança.
2017
Uma delícia!
Cosias que nos animam

terça-feira, setembro 05, 2017

Livro do dia. II. As fabulosas histórias da Tapada de Mafra / Cristina Carvalho, Naná Sousa Dias, Teodora Boneva



Há livros com perfume. Neste, odores a urze, e a mato. Uma homenagem a um belo sítio, a Tapada de Mafra, e um itinerário de histórias que nos traz companheiros inesquecíveis, viventes entre as árvores. Para ler e reler, saboreando palavras e imagens. Cristina Carvalho prepara assim o nosso encontro com a Natureza:


"Na Tapada de Mafra, nesse reduto de inacreditáveis cores, variedades de espécies vegetais e  animais, quando passeamos ao fim da tarde, num morno fim de tarde, por caminhos de terra batida, sentimos cheiros. Cheiros intensos pelos ares. São cheiros extraordinários e, ainda que estranhos, fixar-se-ão para todo o sempre no nosso cérebro, num canto do cérebro, esse destinado aos cheiros. São as urzes do mato a invadir toda a atmosfera! Com as suas flores pequeninas cor-de-rosa, este arbusto aromático tem sido sempre preferido por todos os artistas dos perfumes, essas pessoas que se dedicam a criar novos aromas a partir das fragrâncias da própria natureza. Esses artistas descobrem pétalas, recolhem folhinhas tenras, retiram o casco dos troncos e aspiram de nariz no ar a atmosfera da floresta e depois, lá nos seus laboratórios mágicos com fornos e fogos e tubos e caixas, aqueles narizes experimentam, experimentam, misturam, dilatam as narinas, tudo num frenesim de descobertas e vão sempre cheirando e cheirando até atingir a improvável leveza dos aromas. O melhor aroma sobrevive sempre. É por esse trabalho de incrível sabedoria e conhecimento da natureza que depois, mais tarde, compramos, para aplicar nos nossos pescoços, nos nossos cabelos e na nossa roupa, vislumbres de clareiras, de moitas de flores, charcos largos de luar, madrugadas leves, algumas rosas colhidas em certas noites do verão. O cheiro da urze invade o caminho por onde andamos a passear neste fim de tarde. O cheiro da urze é subtil, delicado e transparente. Também muitas abelhas preferem as urzes! Talvez não saibam que muitos champôs e cremes do corpo e chás e tantos outros produtos têm como componente a urze! E quem diz a urze, diz as silvas dos silvados, diz as folhas dos regatos, diz papoilas, diz também musgos orvalhados."

Texto retirado das primeiras páginas, aqui.
Mais informação sobre o livro, aqui
Mas o melhor, melhor, é mesmo lê-lo.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Livro do dia. I. E se Obama fose africano? / Mia Couto

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Neste livro, encontramos um magnífico texto de 2007 de Mia Couto que nos guia no desarmadilhamento do mundo.



Armadilha da realidade
A realidade é uma construção social e é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. Nós não temos sempre que a levar tão a sério.A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela não nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se não nos deixarmos dissolver por outras identidades e não reacordarmos em outros corpos, outras vozes. A questão não é apenas do domínio de técnicas de decifração do alfabeto. Tratase, sim, de possuirmos instrumentos para sermos felizes. E o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil mesmo é sermos os outros. 
Armadilha da identidade
Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma. Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade. Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente. 
Armadilha da hegemonia da escrita
Uma terceira armadilha é pensar que a sabedoria tem residência exclusiva no universo da escrita. É olhar a oralidade como um sinal de menoridade. Com alguma condescendência, é usual pensar a oralidade como património tradicional que deve ser preservado. O culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade. 
Vale mesmo a pena ler tudo, ler o livro. Há lá mais...

O texto que destaco hoje, apresentado numa Conferência em São Paulo em 2007, pode também ser lido na íntegra aqui:


"Quanto menos entendemos, mais julgamos." - Mia Couto