Há livros com perfume. Neste, odores a urze, e a mato. Uma homenagem a um belo sítio, a Tapada de Mafra, e um itinerário de histórias que nos traz companheiros inesquecíveis, viventes entre as árvores. Para ler e reler, saboreando palavras e imagens. Cristina Carvalho prepara assim o nosso encontro com a Natureza:
"Na Tapada de Mafra, nesse reduto de inacreditáveis
cores, variedades de espécies vegetais e animais, quando
passeamos ao fim da tarde, num morno fim de tarde, por
caminhos de terra batida, sentimos cheiros. Cheiros intensos
pelos ares. São cheiros extraordinários e, ainda que estranhos,
fixar-se-ão para todo o sempre no nosso cérebro,
num canto do cérebro, esse destinado aos cheiros. São as
urzes do mato a invadir toda a atmosfera! Com as suas flores
pequeninas cor-de-rosa, este arbusto aromático tem sido
sempre preferido por todos os artistas dos perfumes, essas
pessoas que se dedicam a criar novos aromas a partir das
fragrâncias da própria natureza. Esses artistas descobrem
pétalas, recolhem folhinhas tenras, retiram o casco dos troncos
e aspiram de nariz no ar a atmosfera da floresta e depois,
lá nos seus laboratórios mágicos com fornos e fogos
e tubos e caixas, aqueles narizes experimentam, experimentam,
misturam, dilatam as narinas, tudo num frenesim de
descobertas e vão sempre cheirando e cheirando até atingir
a improvável leveza dos aromas. O melhor aroma sobrevive
sempre. É por esse trabalho de incrível sabedoria e conhecimento
da natureza que depois, mais tarde, compramos,
para aplicar nos nossos pescoços, nos nossos cabelos e na
nossa roupa, vislumbres de clareiras, de moitas de flores,
charcos largos de luar, madrugadas leves, algumas rosas
colhidas em certas noites do verão. O cheiro da urze invade
o caminho por onde andamos a passear neste fim de tarde.
O cheiro da urze é subtil, delicado e transparente. Também
muitas abelhas preferem as urzes! Talvez não saibam que
muitos champôs e cremes do corpo e chás e tantos outros
produtos têm como componente a urze! E quem diz a urze,
diz as silvas dos silvados, diz as folhas dos regatos, diz papoilas,
diz também musgos orvalhados."
Texto retirado das primeiras páginas, aqui.
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Mas o melhor, melhor, é mesmo lê-lo.