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quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Com elas

 
«Vieram de longe, dos lugarejos lá para o âmago das florestas de pinheiros e carvalhais nos planaltos e caramulinhos de onde se avista o Caramulo e já o vulto da Estrela. Levantaram-se ainda com escuro, beberam a malga de café ou engoliram o caldo de cebola adubado com unto, algumas talvez só um naquito de broa. Lá vieram dentro dos xailes, batendo os tamancos cardados sobre os caminhos pegajosos, rechinantes do gelo e da geada. Aqui estão, os pés roxinhos, mãos encolhidas e vermelhas, nariz dormente, olhos lacrimejantes de tanto frio, sentadas nos degraus de granito, muito juntas umas às outras, à espera que se abra a grande porta da escola. Estou entre elas. Estou com elas.»
in Memórias da Escola Antiga (1981)
Sobre as colegas da escola primária de uma aldeia beirã que frequentou no final dos anos 20 e início dos anos 30 do século passado.

«Na década de 30, do século XX, o Estado Novo acabava de se implantar. A nível político vivia-se ainda, sobretudo nas cidades, o rescaldo das lutas dos últimos tempos da República, embora de uma forma muito interiorizada, pois, dada a existência de polícia política, era pouco prudente expressar certas opiniões. Portugal era um país pobre, com cerca de 50% da população vivendo da agricultura, com um índice de analfabetismo de mais de 75% para as mulheres e 70% para os homens, que assim se viam privados do direito de votar. A mortalidade infantil era grande. Sendo as famílias numerosas, era usual ouvir-se "tive seis filhos mas morreu-me um".

terça-feira, março 07, 2017

Nossa história - a propósito de um programa de TV

  Companhia de Diamantes de Angola Andrada – Mulheres de trabalhadores contratados, regressando de uma distribuição de mandioca, feita pela Secção de Propaganda e Assistência à Mão de Obra Indígena da Companhia (início do século XX).
Companhia de Diamantes de Angola Andrada – Mulheres de trabalhadores contratados, regressando de uma distribuição de mandioca, feita pela Secção de Propaganda e Assistência à Mão de Obra Indígena da Companhia (início do século XX).
O ponto de vista que adotei, enquanto historiador e argumentista da série, é um ponto de vista da história de Portugal. Estamos a contar a História do ciclo africano do império, a partir de um ponto de vista de um historiador português. Ou seja, a partir dos fatores que contribuíram para a abertura e falência desse ciclo. Esse ponto de vista é claramente assumido. Não estamos a fazer nem a História de Angola nem de Moçambique. Estamos a fazer a história a partir de um ponto de observação que é a sociedade portuguesa: como nasceu o moderno colonialismo na sociedade portuguesa, como concorreu com os outros capitalismos modernos das potências europeias imperiais, e como é que esse colonialismo acabou por derrotar e se envolver numa guerra sem fim que durou 13 anos, e perdê-la. Essa é a história. Há outras formas de a contar, mas esta foi a que escolhemos.
Fernando Rosas 


“As histórias de crimes do colonialismo neste século estão largamente por contar”, entrevista a Fernando Rosas | BUALA