Os passos a que ando, um atrás do outro, como as letras em carreirinha, do fim para o princípio.
domingo, junho 26, 2011
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
Esquecer e ler
A LEITORA PERFEITA
Esquece o que eu escrevi, deita-te aqui perto
e ouve só as minhas palavras sem sentido,
o balbuciar que eu solto antes da voz,
tudo o que há tanto tempo trago preso na garganta.
nem o ritmo da cantilena aprendida na infância,
nem a música da poesia:
ouve apenas o balbuciar, o sopro antes da voz,
quase um estertor, mas a dizer agora
que estamos vivos.
LUIS FILIPE CASTRO MENDES
in LENDAS DA ÍNDIA (Pub. D. Quixote, 2011)
Não ceder. Ser
Ser diferente
A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'
quinta-feira, junho 23, 2011
Fases
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
Democracy
Democracy
Democracy will not come
Today, this year
Nor ever
Through compromise and fear.
I have as much right
As the other fellow has
To stand
On my two feet
And own the land.
As the other fellow has
To stand
On my two feet
And own the land.
I tire so of hearing people say,
'Let things take their course.
Tomorrow is another day.'
I do not need my freedom when I'am dead.
I cannot live on tomorrow's bread.
'Let things take their course.
Tomorrow is another day.'
I do not need my freedom when I'am dead.
I cannot live on tomorrow's bread.
Freedom
Is a strong seed
Planted
In a great need.
I live here, too.
I want freedom
Just as you.
Is a strong seed
Planted
In a great need.
I live here, too.
I want freedom
Just as you.
Langston Hughes: Freedom is a strong seed * Apresentação e selecção de poemas por Pedro Silva Sena
Retirado do Inefável
Demo.cratica
Esta experiência de utilizador é seguramente determinante para mostrar aos responsáveis que o acesso fácil e imediato à “cousa” pública é algo que não só faz sentido, como é urgente. Há muitas formas de publicar a informação pública que não têm de passar por arquivos digitais complexos e inacessíveis. E é isso que queremos provar.Sente-te parte deste projecto se achas que podes acrescentar-lhe valor. Há muitas pontas, alinhavos e nós por dar. Do trabalho de patchwork teremos mais cor, mais texturas, mais impacto visual, mais formas, mais técnicas de unir os fragmentos, que é como quem diz, melhor serviço à transparência.
Eu conto...
Era uma vez um projecto, de seu lindo nome Tranparência Hackday Porto, no ano da Graça de 2011. Dedicado a gerar desafios, o primeiro produto que lançou é o demo.cratica.org, um repositório sobre a Assembleia da República, em versão beta, como tudo, afinal, na nossa vida.
Curioso/a?
Dá vontade de interagir, não é? Pois.
quarta-feira, junho 22, 2011
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita genteque come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
Outro o mesmo
"Como António Guerreiro escreveu no Expresso, a ideologia única produtivista, do crescimento sem sustentação,conformada com o capitalismo financeiro, triunfa em quase todas as praças (ah, mas não esqueçam as ruas de Espanha e as ruas da Grécia). E o que vamos ter é isto. Os comentadores no poder com alguns independentes úteis, jovens-jovens (“temos que lhes dar muito apoio politico”), “sem compromissos com lobbies”, imbuídos de “espírito de missão”, que falam a linguagem de Bruxelas, amigos da troika. Os comentadores que não entraram para o governo espreitam a oportunidade (o governo é uma work in progress, que se vai estender aos assessores e aos representantes loco-regionais).A poderosa máquina propagandística de Sócrates, que foi o tema principal da campanha de Manuela Ferreira Leite e a obsessão privada de Pacheco Pereira, esboroou-se numa semana."
citado de
OUTRO PAÍS O MESMO
no Blog A Natureza do Mal, hoje
domingo, junho 19, 2011
Maria-Lisboa
Maria-Lisboa
É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co'o mar.
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co'o mar.
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa.
David Mourão Ferreiratempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa.
O impossível riso
A carta de Saramago à sua avó
"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua"
José Saramago
Batentes
As portas que batem nas casas que esperam.
As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
Maria Judite de Carvalho
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
Maria Judite de Carvalho
De rotas
Há quem julgue que nos venceu
(O Sonho é a nossa arma)
Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu.
a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar;
SONHAMOS.
para lutar;
SONHAMOS.
…enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim. sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
E o sonho quem o derrota?
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.
Fala!
Fala!
Fala a sério e fala no gozo
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
falinhas mansas ou palavrão
Fala a miúda mas fala bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala franciú fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.
fala com elegância muita e devagar.
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