Quantas coisas quisera hoje dizer,
brasileiros,
quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que
levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos
e
saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano
Pacífico, palavras que me disseram
ao passar os operários, os
mineiros, os pedreiros, todos
os povoadores de minha pátria
longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que
segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina
dando-me espigas?
Uma mensagem tinham. Era: Cumprimenta
Prestes.
Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.
Aparta suas
prisões, procura sua cela, chama.
E se não te deixam falar-lhe,
olha-o até cansar-te
e nos conta amanhã o que viste.
Hoje estou orgulhoso de vê-lo
rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou dizer ao
Chile: Eu o saudei na viração
das bandeiras livres de seu povo.
Me lembro em Paris, há alguns anos,
uma noite
falei à multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha
Republicana, para o povo em sua luta.
A Espanha estava cheia de
ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o meu apelo em
silêncio.
Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe
e lhes
disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,
Modesto,
Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América,
são irmãos
de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de
Prestes.
E quando disse o nome de Prestes foi como um rumor
imenso.
no ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de
olhos úmidos
olhavam para o futuro do Brasil e para a Espanha.
Vou contar-vos outra pequena história.
Junto às grandes minas de carvão, que
avançam sob o mar,
no Chile, no frio porto de Talcahuano,
chegou
uma vez, faz tempos, um cargueiro soviético.
Quando a noite
chegou
vieram aos milhares os mineiros, das grandes minas,
homens,
mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas
mineiras,
a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para
o navio que vinha dos portos soviéticos.
Aquela noite escura teve estrelas:
as
estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os
rincões
da nossa América, do México livre, do Peru sedento,
de
Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai, refúgio de irmãos
asilados,
o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas
em
que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram,
pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes
contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos
anos duros de solidão e sombra.
Vou dizer-lhe que não guardas
ódio.
Que só desejas que a tua pátria viva.
E que a
liberdade cresça no fundo
do Brasil como árvore eterna.
Eu quisera contar-te, Brasil, muitas
coisas caladas,
carregadas por estes anos entre a pele e a
alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o poeta e o
povo: fica para outra vez, um dia.
Peço hoje um grande silêncio de
vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e
varões.
Peço silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio:
com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: que o Brasil falará
por sua boca.
Pablo Neruda
Poema lido no Estádio do Pacaembu, a
15 de julho de 1945