segunda-feira, dezembro 18, 2017

Pedir livros, pedir horizontes


Foto de Manuela Barreto Nunes.
Ed. Casa Museo Federico Garcia Llorca de Fuente Vaqueros
Llorca, séc. XX (via Manuela Barreto Nunes, séc. XXI). Iberia: Alocución al pueblo de Fuente Vaqueros, 1931. Leiam a tradução em português do Brasil aqui  (via Youtube- Focus Portal Cultural, 2016)

"Cuando alguien va al teatro, a un concierto o a una fiesta de cualquier índole que sea, si la fiesta es de su agrado, recuerda inmediatamente y lamenta que las personas que él quiere no se encuentren allí. «Lo que le gustaría esto a mi hermana, a mi padre», piensa, y no goza ya del espectáculo sino a través de una leve melancolía.


Foto de Henrique Barreto Nunes.
Trad. português de Portugal, 1ª ed. 2004
Ésta es la melancolía que yo siento, no por la gente de mi casa, que sería pequeño y ruin, sino por todas las criaturas que por falta de medios y por desgracia suya no gozan del supremo bien de la belleza que es vida y es bondad y es serenidad y es pasión.
"Por eso no tengo nunca un libro, porque regalo cuantos compro, que son infinitos, y por eso estoy aquí honrado y contento de inaugurar esta Biblioteca del pueblo, la primera seguramente en toda la provincia de Granada.

"No sólo de pan vive el hombre”. Yo, si tuviera hambre y estuviera desvalido en la calle no pediría un pan; sino que pediría medio pan y un libro. Y yo ataco desde aquí violentamente a los que solamente hablan de reivindicaciones económicas sin nombrar jamás las reivindicaciones culturales que es lo que los pueblos piden a gritos.

Bien está que todos los hombres coman, pero que todos los hombres sepan. Que gocen todos los frutos del espíritu humano porque lo contrario es convertirlos en máquinas al servicio de Estado, es convertirlos en esclavos de una terrible organización social.

Yo tengo mucha más lástima de un hombre que quiere saber y no puede, que de un hambriento. Porque un hambriento puede calmar su hambre fácilmente con un pedazo de pan o con unas frutas, pero un hombre que tiene ansia de saber y no tiene medios, sufre una terrible agonía porque son libros, libros, muchos libros los que necesita y ¿dónde están esos libros?

¡Libros! ¡Libros!
Hace aquí una palabra mágica que equivale a decir: «amor, amor», y que debían los pueblos pedir como piden pan o como anhelan la lluvia para sus sementeras.
Cuando el insigne escritor ruso Fedor Dostoyevsky, padre de la revolución rusa mucho más que Lenin, estaba prisionero en la Siberia, alejado del mundo, entre cuatro paredes y cercado por desoladas llanuras de nieve infinita; y pedía socorro en carta a su lejana familia, sólo decía: «¡Enviadme libros, libros, muchos libros para que mi alma no muera!».
Tenía frío y no pedía fuego, tenía terrible sed y no pedía agua: pedía libros, es decir, horizontes, es decir, escaleras para subir la cumbre del espíritu y del corazón. Porque la agonía física, biológica, natural, de un cuerpo por hambre, sed o frío, dura poco, muy poco, pero la agonía del alma insatisfecha ura toda la vida.
Ya ha dicho el gran Menéndez Pidal, uno de los sabios más verdaderos de Europa, que el lema de la República debe ser: «Cultura». Cultura porque sólo a través de ella se pueden resolver los problemas en que hoy se debate el pueblo lleno de fe, pero falto de luz".

domingo, dezembro 10, 2017

Miguel Hernandez


Miguel Hernández, séc. XX
Daqui
Entre 10 e 14 de Dezembro de 2017, A Escola da Noite publica no seu weblog um poema de Miguel Hernández por dia, antecipando a chegada a Coimbra do espectáculo “Un encuentro con Miguel Hernández”, do Teatro Guirigai.

Não podendo ir a Coimbra, resta-me leitura, e um vago exercício de tradução modesta, para que se agradece o recordatório.

Si me muero, que me muera
con la cabeza muy alta.
Muerto y veinte veces muerto,
la boca contra la grama,
tendré apretados los dientes
y decidida la barba.
Cantando espero a la muerte,
que hay ruiseñores que cantan
encima de los fusiles
y en medio de las batallas.

Miguel Hernandez


Se morro, pois que morra
de cabeça muito alta.
Morto e vinte vezes morto,
a boca contra a erva,
terei cerrados os dentes
e decidida a barba.

Cantando espero pela morte,
que há rouxinóis que cantam
bem acima dos fusis
e no meio das batalhas.

Tradução repentina
Maria José Vitorino

sábado, dezembro 09, 2017

Conversar no Natal, com os meninos e as meninas

 Strive to 5 2
Estudos indicam que crianças que participam frequentemente em conversas mais extensas com adultos apresentam melhores resultados ao nível do desenvolvimento da linguagem e aprendizagem da literacia. Importa, portanto, procurar que a criança se envolva e contribua ativamente no diálogo, ao invés de terminar a conversa ou mudar o tema logo após o primeiro comentário ou resposta. 
David Dickinson (2015) cunhou a expressão “Strive for 5” – “Apontar para os 5” – sugerindo uma abordagem em que o adulto e a criança desenvolvem conversas em que interagem pelo menos durante 5 turnos de conversação sobre o tópico, aprofundando o tema e explorando a conversa.
O Cão Leitor | Livros, Literacia e Literatura para crianças

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Depois de amanhã, gente e trabalho

Freelancing in America


Freelancing in America
Freelancing in America (USA)
Image: Freelancers Union and Upwork

Futuro do Trabalho, e de quem trabalhar . Quatro previsões (World Economic Forum, 2017):

(1) Inteligência artificial não vai reduzir trabalho, mas sim exigir novas competências
(2) Cidades vão competir entre si pela posse dos maiores talentos. 
(3) “Freelancing” vai aumentar. 
(4) Educação vai quebrar os silos que a limitam.

1. AI and robotics will create more jobs, not mass unemployment  as long as we responsibly guide innovation
(...) In 2018, we must finally realize that it’s no longer a matter of human versus machine, but rather human and machine working in tandem to solve the world’s problems. It is humans who ultimately decide the next course of action.(...)
2. Cities will compete against other cities in the war for top talent
(...) The talent war of the future will no longer be between companies, it will be between cities. As technology untethers society, and remote work becomes the norm, people will live in the cities of their choosing, rather than the ones that are nearest to where they workThe cities of their choosing will have a certain “vibe” by offering attractive living options in tech-friendly environments.(...)
3. The majority of the US workforce will freelance by 2027
(...) The youngest workforce generation is leading the way, with almost half of millennials freelancing already. (...)
4. Education breaks out of the silo
Our education system is broken. The way we educate future generations no longer prepares them adequately for the skills and jobs of today. The idea that you study math and science and art in your youth as separate disciplines, and then work to solve real world problems in today’s economy, does not add up. Preparing students for tomorrow’s jobs requires breaking down the silos within education.

Fonte inspiradora: https://www.weforum.org/agenda/2017/12/predictions-for-freelance-work-education/

Dias úteis


Dias úteis 
às vezes pretextos fúteis 
pra encontrar felicidades 
no percurso de um só dia 
Dias úteis 
são tão frágeis, as verdades 
que se rompem com a aurora 
quem as não remendaria? 
Dias úteis 
mesmo se a dor nos fizer frente 
a alegria é de repente 
transparente 
quem a não receberia? 
Mesmo por pretextos fúteis 
a alegria é o que nos torna 
os dias úteis 

Dias raros 
aqueles que por amparos 
do bom senso e da imprudência 
fazem os prazeres do dia 
Dias raros 
como os ares, rarefeitos 
amores mais do que perfeitos 
quem os recomendaria? 
Dias raros 
em que os mais dados às rotinas 
ouvem sinos, seguem sinas 
cristalinas 
quem as não perseguiria? 

Por motivos talvez claros 
o prazer é o que nos torna 
os dias raros 
Por pretextos talvez fúteis 
a alegria é o que nos torna 
os dias úteis 
Por motivos talvez claros 
o prazer é o que nos torna 
os dias raros 
Por pretextos talvez fúteis 
por motivos talvez claros

Sérgio Godinho

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Coisas que nos animam - ler, ler muito, leeer, e contar como

Ler e contar como. Respirar e inspirar
Os operários e a Cristina Taquelim, 2017, Lagos, Portugal 

Os operários são fixes!: Histórias que cabem num ouvido: Hoje voltámos à Biblioteca Municipal de Lagos para termos uma sessão com a contadora de histórias Cristina Taquelim. A ativida...

Coisas que nos animam - ler, ler muito, leeer, e contar como

Ler e contar como. Respirar e inspirar
Os operários e a Cristina Taquelim, 2017, Lagos, Portugal 

Os operários são fixes!: Histórias que cabem num ouvido: Hoje voltámos à Biblioteca Municipal de Lagos para termos uma sessão com a contadora de histórias Cristina Taquelim. A ativida...

Miúdos & Neorealismo

Foto de Fátima Faria Roque.

14 de dezembro - já para a semana, 5ªfeira. Inaugura-se a exposição, no Museu do Neorealismo, com curadoria de Violante Magalhães e Ana Carina Infante do Carmo.

Em Janeiro, e inicia-se um Curso Livre / Curso de Formação associado:http://www.comparatistas.edu.pt/…/miudos-a-vida-as-maos-che…
Entrada sessão a sessão - livre.  Frequência do curso completo, creditado e certificado, sujeita a inscrição.

Até setembro de 2018, esta exposição traz no regaço outras flores - valerá a pena percorrer o programa http://www.comparatistas.edu.pt/images//programa%E7%E3o_mi%FAdos_05122017.pdf

Entre outras coisas, há sessões de cinema gratuitas, desde 10 de janeiro. As escolas do concelho podem pedir transporte à Câmara Municipal... A programação pode ser interessante para os mais velhos - 3º ciclo, Ensino Secundário.
Tudo em Vila Franca de Xira, acessível.
Recordo que há muito desapareceram todas as salas de cinema do concelho.

O Neorealismo é património cultural comum nosso, e uma riqueza a partilhar com as próximas gerações. O mais importante é mesmo isso - o que permanece depois da espuma dos dias, por mais intenso que hoje nos pareça o frio de alguns dias de Inverno.

Está prevista a publicação dos textos do Curso na revista Nova Síntese, da Associação Promotora do Neorealismo, que desde há décadas amorosamente labora pela Cultura e pelo desenvolvimento e divulgação do Museu, e que tenho a honra de integrar.

domingo, dezembro 03, 2017

Histórias do Natal - 1


Aquilo que é necessário

Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, eu, o meu irmão e as minhas duas irmãs fomos acordados, não pelo meu pai ou a minha mãe como era costume, mas por um tio e uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava da casa do meu avô materno a casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu avô calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não tinha a certeza que o meu pai sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.

Quando visitávamos os meus pais em Caxias, em Peniche, encontrámos pessoas que sofreram muito mais que nós e estavam muito mais desamparadas. Especialmente os familiares de militantes do PCP, gente heróica sem bravata. Aprendemos que, para além dos nossos pais e dos que, com eles, foram a Beja (alguns, com menos sorte e resistência física que o meu pai, para lá morrerem), havia em Portugal muitas pessoas rectas que, ao fazerem o que era necessário fazer, causaram danos colaterais como aqueles que a minha família sofreu. Aprendemos que é mesmo assim, que nada se consegue sem danos colaterais. Aprendemos também, todavia, que a maioria das pessoas não suporta esta ideia e quer somente paz e sossego. É a vida, mas felizmente haverá sempre aqueles que são maiores que a vida. Se os não houvera, a iniquidade venceria necessariamente.



Coincide com os 50 anos da Revolta de Beja a perseguição movida pelo regime que hoje vigora em Portugal contra Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional responsável pela revolta seguinte, o 25 de Abril de 1974. Que isso não nos impeça de dizer e fazer o que é necessário. A iniquidade não pode vencer.

Paulo Varela Gomes
7.1.2012, in Público


Partilhado aqui

Entre as brumas da memória: Ainda a propósito do Golpe de Beja e de um texto de Paulo Varela Gomes

Mild Manual de Instruções para a Literacia Digital

Foto de Daniel Cassany.


Manual = recurso à mão de cada qual. Pensado para a faixa etária dos 15 aos 18 anos - em Portugal, a escolaridade obrigatória vai até este limite (12ºano), e os jovens desta idade usam intensamente os meios digitais, a internet, a web... sabendo utilizá-los com limitações.

É suficiente? Provavelmente não.

Faz falta? Faz.

Ainda temos, em 2017, em Portugal Continental e nas Regiões Autónomas, e entre falantes e leitores de língua portuguesa no mundo - 4ª mais falada e a 5ª mais usada na internet (dados de 2017):
  • muitos jovens que não concluem a escolaridade básica, ou que não o fazem antes dos 18 anos
  • muitos jovens que não concluem o ensino secundário, ou que não o fazem antes dos 18 anos
  • muitos estudantes universitários com fracas competências em literacia da informação, e noutras literacias
Agora, é explorar o Portal criado por um Projeto Gulbenkian (2015-2017) e entregue pela Fundação à RBE Rede de Bibliotecas Escolares, para que o dinamize e desenvolva. 

Ver mais aqui:
Mild

Como lê Portugal - um video de quase 3 min, 2017

Imagem daqui, sem créditos  


Que somos um país de poetas já todos sabemos. Mas será que lemos tanto quanto escrevemos? A realidade entre aquilo que se edita e aquilo que a população lê é muito diferente. E, sobretudo, coloca-nos na cauda da Europa no que respeita a hábitos de leitura. Jornalismo de dados em dois minutos e 59 segundos para explicar quem lê, o que lê e como lê.

Serviço público - Pordata/Expresso

Expresso | Como lê este país

quarta-feira, novembro 29, 2017

A corda que faz o laço, em tempos de cegueiras


Imagem de Filipe Ferreira, daqui
Penso que o fenómeno que mostra estarmos numa época diferente é a desculturação – e que é maciça. Há 50 ou 60 anos, mesmo com muitos analfabetos e com uma vida quotidiana muito mais difícil nos aspectos vitais, existia uma ligação à terra que permitia haver uma cultura, haver raízes. E a cultura não só se massificou, como se desenraizou. Portanto há uma epidemia de amorfismo que, num aspecto, se assemelha com o que tínhamos na ditadura: parece que vivemos no meio de uma papa cinzenta. É a desculturação, a falta de assunto. Trata-se de uma característica geral da época da globalização do capitalismo, não é uma queixinha que estou a fazer em relação ao nosso país. Digamos que a estética pós-modernista é um resultado directo disso, é feita para alimentar essa visão do mundo que não é uma visão, é uma forma de cegueira. E por ter essa relação com os tais valores que não são os valores da Bolsa, não quero que esta conversa seja percebida como uma conversa amarga. Só que o mundo está diferente. Ainda não percebemos bem a gravidade do que está a acontecer de há 20 ou 30 anos para cá.  
A única coisa que vislumbro é que é preciso começar tudo de novo, mais uma vez, como o Ehrlich, e é preciso começar pelo que está perto, pelo que está em baixo, no chão. É um trabalho muito mais a partir das questões biológicas, animais, da sobrevivência, do medo, do prazer, das questões básicas. A estrutura de classes modificou-se imenso, mas não a forma de apropriação da mais-valia pelo capital. E hoje o que há é uma visão da arte que corresponde perfeitamente ao capitalismo pós-II Guerra Mundial. Quando vemos a história do Van Gogh ou do Modigliani e comparamos com a rapariga que faz galos de Barcelos isso é uma amostra do trabalho do pós-modernismo. Deixou de haver ética na criação artística. Deixou de haver compromisso. Deixou de haver sangue. É raro encontrar-se uma obra, mesmo de menor qualidade estética, em que se sinta a preocupação de comunicar com o outro. 
José Mário Branco, 2017
Entrevista. “Deixou de haver ética e sangue na criação artística”

terça-feira, novembro 28, 2017

Geringonças

Retirado daqui

Ilustração de Anabela Dias no livro Tepluquê e outras histórias, de Manuel António Pina, ed. Porto Editora, Col. Educação Literária, 2013

Águias, procuram-se

Foto daqui
Foto daqui



Por detrás do horizonte há sempre outro horizonte - falta alcance, ai de nós. Já é tempo de erguer os olhos e apontar mais longe.

No rescaldo de mais uma votação do Orçamento de Estado de Portugal, para 2018, envolvendo compromissos e desistências, com manifesta falta de águias no comando e no desejo, cito uma voz sábia:


Os próximos quatro anos "poderiam servir para implementar algumas das reformas estruturais que a esquerda defende para o país e para o Estado, mostrando que tem proposta, e não apenas resistência, que não é uma força conservadora, apenas defende caminhos diferentes na mudança."
Pois. Mas isso exigiria, não um golpe de asa como o que nos levou à solução parlamentar e governativa actual, mas um grande voo de águia, visando para além do horizonte.



sábado, novembro 25, 2017

Ser leitor, revelar os livros

Foto de Cristina Carvalho.
Foto partilhada por Cristina Carvalho, criança

De vez em quando, dou por mim a pensar nas fichas de leitura que muitas vezes encontramos na prática diária das escolas e, até, de bibliotecas escolares, e na dependência que tantas vezes noto desse recurso. Li hoje uma memória de infância deveras útil para refletir.

Os pais da Cristina foram grandes leitores, e criadores.
Como promoviam/mediavam a leitura da sua educanda? Ora vejam

  1. conheciam bem a filha, acompanhavam dia a dia o seu crescimento, sem estar com ela a todas as horas e minutos - sabiam quem era e como era o seu destinatário de educação / mediação
  2. liam os livros, escolhiam-nos pensando nela, liam-nos (repito a palavra, acho que não devia ser só uma vez) - conheciam os conteúdos a fundo, e por si mesmos, com opinião
  3. forneciam os livros, tinham-nos disponíveis - organizavam as coleções, e não um único livro, um único texto
  4. davam tempo para ler; confiavam que a filha os leria, e criavam expetativa - iriam saber como os tinha lido... - cuidavam da relação e das condições para ler
  5. entusiasmavam a partilha da leitura por métodos simples - conversar, partilhar frases; liam-nas, interagiam, comentavam, transformavam - davam valor, que é o que significa avaliar. 
Naquela época, ainda não havia tablets nem blogs nem sms nos telemóveis... mas havia uma corda, molas de roupa, papel/cartolina e lápis. E houve tempo e atenção entre leitores. Entre leitores, se faz leitura.

Tudo isto se fazia em casa, e pode ser feito na escola e em qualquer lugar, sejam quais foram as tecnologias disponíveis. Com a devida vénia, reproduzo a história inspiradora, partilhada na página do Facebook da sua autora, que muito prezo. 
OS MEUS LIVROS – sim, talvez fosse tudo muito esquisito, mas foi assim. E isto hoje vem a propósito. São memórias, são lembranças. 
Comecei pela leitura. Li desde muito cedo. Os meus pais “estudavam”, preparavam os livros que eu devia ler. E eu lia-os todos. E depois conversávamos sobre esses livros. Também fazia uma espécie de relatório daquilo que lia. As minhas melhores frases eram, então, escolhidas, escritas num recorte de cartolina e eu própria, mensalmente, fazia uma exposição com essas cartolinas com as minhas frases lá escritas, presas com uma mola da roupa e penduradas num cordel que ia de ponta a ponta do meu quarto. Quem assistia aquela exposição? Os meus pais que, geralmente, concordavam com a escolha das frases e se não concordassem, eu deveria arranjar outras frases melhores e tornar a escrevê-las. Eu adorava isto, por muito estranho que possa parecer. Mas as crianças gostam de coisas estranhas…

Certo é que tem sido sempre assim, ao longo da vida. Leituras, observações, notas, resumos. Claro que já não faço exposições com cordéis e molas da roupa a prender recortes, no meu quarto, mas de alguma outra forma exponho aquilo que vou escrevendo. 

Revelo os meus livros. Na foto, eu, 3 anos.
Cristina Carvalho, 2017
Pais leitores, criadores, educadores: Natália Nunes, Rómulo de Carvalho/António Gedeão

sexta-feira, novembro 24, 2017

José Afonso - "Canção do Mar" do disco "Cantares de José Afonso" (1ª edi...

Celebrar Gedeão

Fonte: BN Digital (20171124)

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.


Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão
In Movimento Perpétuo (1956)

Luiz Melodia - Que Loucura

quarta-feira, novembro 22, 2017

O quiosque das Worst Tours pode fechar. Porquê? | P3

O quiosque das Worst Tours pode fechar. Porquê? | P3: O quiosque amarelo que leva turistas em “passeios do piorio” pelo Porto pode fechar no final deste ano. A Câmara do Porto diz que o contrato não foi cumprido pelos proprietários, mas os criadores das Worst Tours dizem desconhecer as razões para o encerramento