terça-feira, fevereiro 12, 2019

ROSA



AS IDADES DE ROSA MARIA
«Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a de África e ela acabou vendida no Rio de Janeiro.
Quando tinha catorze, o dono abriu-lhe as pernas e ensinou-lhe um oficio.
Quando tinha quinze, foi comprada por uma fábrica de Ouro Preto, que passou a alugar o seu corpo aos garimpeiros.
Quando tinha trinta, essa família vendeu-a a um sacerdote, que praticava nela os seus métodos de exorcismo e outros exercícios nocturnos.
Quando tinha trinta e dois, um dos demónios que habitavam o seu corpo fumou pelo seu cachimbo, uivou pela sua boca e fê-lo contorcer-se no chão. E por isso foi condenada a cem chicotadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-lhe um braço paralisado para sempre.
Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou a sua carne com um cilício, e a mãe da Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo dizem, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.
Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas fora de prazo, que financiava vendendo biscoitos amassados com a sua saliva, remédio infalível contra qualquer doença.
Quando tinha quarenta, inúmeros fiéis assistiam os seus transes, onde ela dançava ao ritmo de um coro de anjos, envolta em fumo de tabaco, e onde o Menino Jesus mamava do seu peito.
Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de feitiçaria e presa na cadeia do Rio de Janeiro.
Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era feiticeira porque conseguiu suportar sem uma queixa, durante muito tempo, uma vela acesa sob a língua.
Quando tinha quarenta e quatro, foi enviada para Lisboa e presa na cadeia da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tortura para ser interrogada e nunca mais se soube dela.»
Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal

domingo, fevereiro 10, 2019

Netos de Aristides de Sousa Mendes acusam em tribunal defensores de Salazar. Justiça e memória!



Grata à Família que assim se continua a ilustrar, para bem de todos nós. Recorde-se que Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano de 1940, pela sua fraternidade, bravura e compaixão, salvou milhares de pessoas, e pagou o preço da ruína por isso.

Aristides e Salazar voltam a encontrar-se em tribunal: O rol das acusações não é curto (ofensa à memória de pessoa falecida e difamação, por exemplo). Mas inclui também um crime de que não há memória de ter sido alguma vez julgado em Portugal: negacionismo do Holocausto. Este está previsto no artigo 240.º do Código Penal e prevê uma pena de prisão de seis meses a cinco anos para quem, publicamente, proceder à "apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade".

Essa acusação - que agora o tribunal terá de dirimir, julgando-a ou não - surge porque os réus terão desvalorizado a ação de Sousa Mendes em junho de 1940 em Bordéus com o argumento de que, nessa altura, os judeus não estavam verdadeiramente em perigo.

"Aristides não salva ninguém da morte"


Os autores da queixa são quatro netos do cônsul: António Pedro, Guy Gerald, Sheila Pierce e Aristides. E os réus da Texto Principal (editora proprietária do semanário O Diabo), Duarte Branquinho e Miguel Mattos Chaves (ambos ex-diretores daquele jornal), Carlos Fernandes (um embaixador reformado) e João Brandão Ferreira (coronel reformado). A estes os queixosos pedem, ao todo, 150 mil euros de indemnização cível.

sábado, fevereiro 09, 2019

2019, e ainda nisto...


"A primeira coisa que é preciso perceber: não são as mulheres burras que caem nas mãos dos homens maus. Não é o capuchinho vermelho que cai na mão do lobo mau. É qualquer pessoa.O pior é pensar que quem cai e quem não consegue sair desta situação fá-lo por falta de inteligência. Acredito que em parte seja por vergonha. Por muita vergonha.Uma das coisas com que o agressor conta é com a vergonha da vítima. Com o seu silêncio. Também com a desatenção dos amigos e da família.O agressor conta com o isolamento da vítima; e até, tendo em conta o elevado número de penas suspensas, com a complacência das autoridades."

https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2019-02-08-Porque-e-que-alguem-fica-com-um-homem-que-lhe-bate---Eu-sei-o-que-e-violencia-domestica-e-tu--

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Lisboa, não sejas racista


Lisboa, não sejas racista
Não é só pra turista
Vir e ocupar
Lisboa, não sejas racista
Velha cavaquista
Não queiras voltar
Lisboa, não sejas racista
E crê que esta lista
Não vai amansar
Lisboa, não vives não falas
Tira-me essas palas
E aprende a escutar

sábado, fevereiro 02, 2019

Vitórias. Behrouz Bouchani

Manus Island refugee Behrouz Boochani.
Finte: BBC News

Victorian Premier's Literary Awards - Behrouz Boochani, No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison 

O jornalista curdo escreveu um livro sobretudo com mensagens WhatsApp enviadas da prisão. Foi um dos 6 nomeados para o Prémio Literário, na secção  de não-ficção.
Ganhou o primeiro prémio.
"É uma vitória não apenas para nós, mas também para a Literatura e a Arte, e é, sobretudo, uma vitória para a Humanidade - uma vitória para os seres humanos e a dignidade humana. Uma vitória contra um sistema que nos reduziu a números. Este é um belo momento.", afirma.
O Prémio é o mais importante prémio literário australiano. 


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quarta-feira, janeiro 30, 2019

Música para ousar transformar a vida



Ana Moura, 2012
Letra e música de Caetano Veloso ------------------------------------------------- Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro Percorrer correndo, corredores em silêncio Perder as paredes aparentes do edifício Penetrar no labirinto Um labirinto de labirintos dentro do apartamento Sim, eu poderia procurar por dentro a casa Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas Na sala receber o beijo frio em minha boca Beijo de uma deusa morta Deus morto, fêmea língua gelada, língua gelada como nada Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília Em cada um matar um membro da família Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia O que aconteceria de qualquer jeito Mas eu prefiro abrir as janelas Pra que entrem todos os insetos


Versão original, inesquecível, de Caetano Veloso (1972) aqui https://youtu.be/Y4NWN2qMo4g



Leitura matinal, dedicada a quem vejo ficar fechado em círculos estreitos, e precisa de banhos de realidade urgentemente. Sem me excluir desse risco, que nos pode acontecer a todos. Sobretudo a quem ocupa, ou pensa ocupar, posições de Poder.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Bibliotecas em transformação

MODERN LIBRARIES Moving From A Transactional To A Relational Library Interview With Mogens Vesrgaard


Os espaços das bibliotecas são espaços públicos, e as suas colecções e serviços cada vez mais fazem a diferença na qualidade de vida das pessoas, e na qualidade e quantidade do acesso a informação. 
Mais que postos de transacções - empréstimo de livros, o que continua a ser útil e importante - as bibliotecas oferecem condições para reunião, estudo, pequenos cursos sobre os mais variados temas, meios e tecnologias actualizados para as mais diversas actividades, apoio e credibilidade no acesso a fontes de informação.  Serão as bibliotecas um Quinto Poder?
Entrevista com um bibliotecário de referência da Dinamarca, divulgada pela Associação de Bibliotecas Escolares da Austrália e publicada e difundida pela Princh.
Inclui destaques com exemplos da vida real de bibliotecas em 2018 - públicas e escolares.


Modern libraries: Moving from a transactional to a relational library: Whilst the library of the past was defined by transactional services – lending and returning of books - nowadays the dynamics of the library has changed by adding a relational side to all its processes. This way, modern libraries are shifting from focusing on transactional services, and have become relational which creates more value for

sexta-feira, janeiro 04, 2019

A paz, o pão, a habitação


Demorei uns meses, mas ainda bem que consegui ler o livro. Interessante, actual, desafiador, sobretudo se quisermos cidades em que podemos morar.
O Estado tem de intervir, com ponderação e firmeza.
"Se se quer garantir o acesso à habitação aos cidadãos que trabalham em Lisboa é necessário actuar, mas não mediante a construção de habitação nova. Uma política de esquerdas deve alterar a lei do arrendamento para proteger o inquilino (mais tempo e mais segurança), mas sobretudo deve regular o preço do arrendamento de acordo com os salários da procura local. Esta medida é urgente e necessária. O actual governo tem possibilidade de intervir nesse sentido, mas não parece ter a mínima intenção de o fazer. O governo também deveria eliminar os "Vistos Gold" e os "Residentes habituais" para limitar a atracção de capitais especulativos. Ao mesmo tempo a Câmara Municipal de Lisboa possui um grande património imobiliário que deveria colocar ao serviço dos cidadãos em vez de promover programas como "Reabilita primeiro e paga depois". Existem programas de concessão de uso que estão a ser implementados noutros sítios e que deveriam ser explorados neste contexto. As possibilidades de regulação e intervenção são múltiplas (...). O importante é ter em conta que o caminho adoptado, tanto pela Câmara Municipal de Lisboa como pelo Governo, só agudiza o problema. Para o capitalismo imobiliário, Lisboa continuará a ser uma oportunidade de extracção de lucro e para nós a batalha diária é para não sermos expulsos da casa que se habita ou para procurar uma casa digna."
Agustin Cocola Gantt
p. 247-248