Mostrar mensagens com a etiqueta florestas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta florestas. Mostrar todas as mensagens

sábado, março 31, 2018

Saber da poda




A ler, imediatamente.



Estas práticas [PODAS ABUSIVAS], que em alguns países configuram crimes ambientais, mesmo quando perpretadas em terrenos privados, aqui são sempre justificadas por qualquer razão irracional e mesquinha, ou simplesmente, como se diz no Algarve, porque “as árvores querem-se cortas”. Não há travão ético, estético, nem legal, para refrear o apetite crescente por madeira e outros detritos vegetais, que é a verdadeira força motriz que impulsiona toda esta voracidade podadora recente. Árvores e restante vegetação são em geral vistas entre nós como um estorvo ou apêndice inútil da paisagem, mas – que azar para elas e demais criaturas que delas dependem – cada vez mais uma fonte de rendimento irresistível, desde a venda de madeiras nobres, que atingem no mercado centenas de euros por metro cúbico, como o plátano, o jacarandá ou o cedro, até à transformação para composto, pellets e afins, biogás e electricidade. 
Quando podar, desvastar, recolher, só dava trabalho e nenhum lucro, esses serviços eram realizados por funcionários camarários. Embora as atrocidades tivessem aumentado na razão da evolução das “tecnologias da poda” e diminuição da formação dos podadores, ainda ia havendo uma certa indiferença tolerante. Quando começaram a dar lucro, e muito, rapidamente os mesmos serviços passaram para as mãos de empresas privadas, e desde então, não há erva ou árvore centenária que não esteja à merçê dos exércitos de sapadores recrutados por estas empresas – mão de obra barata não falta e quanto mais energúmeros melhor.
Maria José Castro 

A grande desmatação de 2018 – Observador

quarta-feira, novembro 08, 2017

Portugal, Florestas, novembro 2017

 Produtores florestais denunciam “cenário de pós-guerra” e apoios insuficientes
Serra do Açor, no concelho de Arganil, após incêndios de outubro. Foto Esquerda.net.
1. A situação nos territórios afetados é ainda mais grave do que os meios de comunicação social têm propalado; 
2. Há medidas urgentes que têm de chegar ao terreno no curto prazo; 
3. A situação existente é de um cenário “pós-guerra” que exige uma atuação de emergência; 
4. A floresta, a agro-floresta e os produtores florestais raramente são referidos como parte da solução; 
5. Os apoios não chegaram e não se vislumbra que irão chegar no curto prazo; 
6. Há muito trabalho feito na floresta e nos territórios rurais pelo sector agroflorestal e pelas suas organizações, e está maioritariamente a ser feita “tábua rasa” de todo esse capital; 
7. É preciso atuar no imediato e pensar o futuro de forma diferente, tendo em consideração que sem o território e os seus agentes esse futuro vai estar decisivamente comprometido.
Coimbra, 3.11.2017 


Produtores florestais denunciam “cenário de pós-guerra” e apoios insuficientes | Esquerda

quinta-feira, agosto 31, 2017

Pela re-humanização das montanhas de Portugal


Prof. Jorge Paiva, Biólogo, Universidade de Coimbra, in Público, 2006.
"Antes da última glaciação, Portugal estava coberto por uma floresta sempre-verde (laurissilva).
Durante essa glaciação, a descida drástica da temperatura fez desaparecer quase por completo essa laurissilva, tendo sido substituída por uma cobertura florestal semelhante à actual taiga. Após o período glaciar, a temperatura voltou a subir, ficando o país com um clima temperado, como o actual. Assim, a floresta glaciar foi substituída por florestas mistas (fagossilva) de árvores sempre-verdes (algumas delas relíquias da laurissilva) e outras caducifólias, transformando o país num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho e negral) a norte, marcescente (cerquinho) no centro e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul, com uma faixa litoral de floresta dominada pelo pinheiro manso e os cumes das montanhas mais frias com o pinheiro-da-casquinha (relíquia glaciárica).
Por destruição dessas florestas, particularmente com a construção das naus (três a quatro mil carvalhos por nau) durante os Descobrimentos (cerca de duas mil naus num século) e da cobertura do país com vias-férreas (travessas de madeira de negral ou de cerquinho para assentar os carris), as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes ou torgas, giestas, tojos e carqueja.
A partir do século XIX, após a criação dos "Serviços Florestais", foram artificialmente re-arborizadas com pinheiro bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa.
A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.
Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão. Infelizmente, não vemos nenhum dos que defenderam sempre essa eucaliptização vir agora assumir as culpas destes "piroverões" que passámos a ter e que, infelizmente, vamos continuar a ter.
Também sempre fomos contra o delapidar, por sucessivos Governos, dos Serviços Florestais (quase acabaram com os guardas florestais). Isso e o êxodo rural (os eucaliptos são cortados de 10 em 10 anos e o povo não fica 10 anos a olhar para as árvores em crescimento, tendo, por isso, sido "forçado" a abandonar as montanhas e a ficar numa dependência económica monopolista, que "controla" o preço da madeira a seu bel-prazer) tiveram como resultado a desumanização das nossas montanhas pelo que, mal um incêndio florestal eclode, não está lá ninguém para acudir de imediato e, quando se dá por ele, já vai devastador e incontrolável.
Infelizmente, vamos continuar a ter "piroverões" por mais aviões "bombeiros" que comprem ou aluguem. Isto porque, entre essas medidas, não estão as duas que são fundamentais, as que poderiam travar esta onda de incêndios devastadores que nos tem assolado nas últimas décadas:
- Uma é a re-humanização das montanhas, que pode ser feita com pessoal desempregado que, depois de ter frequentado curtos "cursos de formação" durante o Inverno, iria vigiar as montanhas, percorrendo áreas adequadas durante a Primavera e Verão.
- A outra medida fundamental seria, após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada. Isto porque os eucaliptos rebentam de toiça logo a seguir ao fogo, renovando-se a área eucaliptada em meia dúzia de anos, sem grande utilidade até porque o diâmetro da ramada de toiça não é rentável para as celuloses. Mas como tal não se faz, essa mesma área de eucaliptal torna a arder poucos anos após o primeiro incêndio e assim sucessivamente.
Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves. As acácias, como são heliófitas (plantas "amigas" do Sol), e não havendo sombra de outras árvores após os incêndios, crescem depressa, aproveitando a luminosidade e ocupando aquele nicho ecológico antes de as outras espécies se desenvolverem.
Mas, como vivemos numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais, com maior rapidez e o mais barato possível, as medidas propostas são economicamente inviáveis por duas razões:
- primeiro, porque é preciso pagar aos vigilantes e respectivos formadores;
-segundo, porque arrancar a toiça dos eucaliptos é muito dispendioso (custa o correspondente ao lucro da venda de três cortes, isto é, o lucro de 30 anos).
É bom também elucidar que os eucaliptais só são lucrativos até ao terceiro corte (30 anos). Depois disso, estão a abandoná-los, o que os torna um autêntico "rastilho" ou, melhor, um terrível "barril de pólvora", áreas onde os seus óleos essenciais, por vaporização ao calor, são explosivos e, quando a madeira do eucalipto começa a arder, provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância. Este "fenómeno" tem sido bem visível nos nossos "piroverões".
Por outro lado, pelo menos uma destas medidas (arranque da toiça e re-arborização ordenada) não tem resultados imediatos, mas a longo prazo. Por isso, os governantes não estão interessados na aplicação dessas medidas, pois interessa-lhes mais resultados imediatos (as eleições são de quatro em quatro anos...) do que de longo prazo.
Assim, sem resultados imediatamente visíveis e com uma despesa tão elevada, os governos nunca vão adoptar tais medidas. Preferem gestos, por vezes caricatos, como distribuir telemóveis aos pastores, mas que nunca acabarão com os "piroverões".
Finalmente, após a referida delapidação técnica e funcional dos Serviços Florestais (antigamente, os incêndios florestais eram quase sempre apagados logo no início e apenas pelo pessoal e tecnologia dos Serviços Florestais), esqueceram-se da conveniente profissionalização e apetrechamento dos bombeiros, mais bem adaptados a incêndios urbanos.
Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver claramente o que está a acontecer, caminharemos rapidamente para um amplo deserto montanhoso, com a planície, os vales e o litoral transformados num imenso acacial, tal como já acontece em vastas áreas de Portugal."
____________________________________
Texto importante, divulgado por listas de contacto como a Museum, administradas pelo Prof. José d'Encarnação.

Comentário de Vítor Oliveira Jorge, Agosto de 2017
Os incêndios e toda a tragédia associada - provavelmente cada vez mais ameaçadora devido à degradação das condições climáticas globais, que constantemente se faz sentir através de desgraças humanas e materiais em muitos pontos do mundo - nada têm de surpreendente, nomeadamente em Portugal, onde se tem insistido sempre na praga de plantio de eucaliptos que, entre outras espécies, são de crescimento rápido, provocam a prazo a exaustão dos solos e dão origem a esta autêntica "fornalha em potência" que rodeia habitações, localidades, estradas, e constitui uma autêntica armadilha para os incautos, ou para as pobres pessoas que não têm outro sítio onde viver.

quarta-feira, agosto 10, 2016

O curto prazo cega-nos e devora o futuro

O professor lembra que a deslocalização de grande parte da população rural para o litoral levou ao abandono dos campos e à inevitável falta de gestão destes espaços, com a consequente acumulação do combustível. Por isso, também é preciso apostar na limpeza dos terrenos, mesmo que seja necessário fazê-lo de forma coerciva. Mas, acima de tudo, é preciso premiar os cumpridores, criando incentivos públicos para quem gerir de forma adequada a floresta e para quem limpar o combustível. Em complemento, sugere a criação de equipas de prevenção de incêndios, que trabalhariam todo o ano nas limpezas e na criação e manutenção de pontos de água e de aceiros.
Ricardo Ribeiro insiste que é preciso trocar as políticas de curto prazo, essencialmente reactivas e baseadas em investimentos tecnológicos, por políticas de longo prazo que eliminem as causas estruturais dos incêndios florestais. 
“Somos o único país da União Europeia que apresenta um nível de reflorestação negativa, ou seja, refloresta-se menos do que a área que arde. Por isso, temos hoje muito menos floresta que há 20 anos

Ricardo Ribeiro, professor na área da protecção civil e comandante dos bombeiros de Paço de Arcos



Melhorou-se no combate aos fogos, mas "deixou-se tudo o resto por fazer" - PÚBLICO