You
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entre
nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há
hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do
mais fundo de nós o mais útil segredo
entre
nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de
costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e
ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu
precipício
Ao longo da
muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de
morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras,
frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como
barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu
segredo e a sua posição
Entre nós
e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore
E há
palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem
ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca
escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos
connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito
além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra
só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós
e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso
dever falar
©
1957, Mário Cesariny (1923-2006)
From:
Pena Capital
Publisher: Assírio & Alvim, Lisbon, 2004
ISBN:
972-37-0512-5