segunda-feira, fevereiro 12, 2007

SIM

foto de Joyce (2002)

simsimsimsimsimsimsim

Mais de metade dos votantes
Em quase metade dos votáveis

Mais um passo GRANDE

Obrigada

domingo, fevereiro 11, 2007

Assis Pacheco II (a ministros que falam e a alguns que calam)

ESTE MINISTRO É UM MENTIROSO

Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha

Fernando Assis Pacheco

Assis Pacheco I

MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,

não limpei o óleo do cano,

dizem que a guerra mata: a minha

desfez-me logo à chegada.


Não houve pois cercos, balas

que demovessem este forçado.

Viram-no à mesa com grandes livros,

com grandes copos, grandes mãos aterradas.


Viram-no mijar à noite nas tábuas

ou nas poucas ervas meio rapadas.

Olhar os morros, como se entendesse

o seu torpor de terra plácida.


Folheando uns papeis que sobraram

lembra-se agora de haver muito frio.

Dizem que a guerra passa: esta minha

passou-me para os ossos e não sai.



Fernando Assis Pacheco.

Homem de jornais e histórias, poeta.
Galego da estirpe mais rara, a da ironia. Gente da mais pura água. Ou da mais pura névoa, cinza como as manhãs frias bordando ribeiras em Coimbra e fragas por Fisterra. Carne e osso, mais aquela que este.
Qualquer coisa de nós todos, do verbo raro de Bocage, palavras letra a letra marteladas com um dedo só, na máquina de escrever.
Palavras mágicas quando as contava, sons de encantar, sempre com um fio verde amargo indistinto a grão de lucidez. A propósito, aposto que odiava homenagens e tudo o que é chato, evangélico e previsível. Ou seja, falso.
Dele vão falar na Casa Fernando Pessoa, nas próximas quintas-feiras. Os amigos, claro, e os que depois vieram. Nos livros, do Walt à poesia, das crónicas espalhadas pelos arquivos dos jornais e pela rádio. Pai de filhas, mais, e filho, um. Ventania, brisa, ar que por aí anda à espera que o respiremos.
Coisa ruim no-lo levou, Novembro adiante, há uns tempos atrás, junto à livraria. Ainda livre, para sempre livro.
Outras ruindades o tinham ferido por dentro, muito antes.

domingo, fevereiro 04, 2007

Antes de votar


SIM


REFERENDO

11 DE FEVEREIRO



Vera Drake

Filme de Mike Leigh (2004)

Legendado em português


Ver e pensar. Conversar e formar opinião.

Sobre o aborto, o filme, a vida dos portugueses e das portuguesas e o referendo de Domingo que vem.


8 de Fevereiro de 2006, 21 h,

Auditório da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira

Entrada livre


org. Núcleo concelhio do Bloco de Esquerda

Domingo que vem

Domingo que vem vamos votar. Espero que muitos e muitas, que desta vez não haja mais desculpas para recusar o voto.
Votar é dar opinião, a parte na decisão sobre as coisas da vida de toda a gente. Toda a gente é mesmo toda a gente, os outros, as outras, e nós.

Não se trata aqui de escolher para um cargo, um conjunto de promessas, um mandato de Presidente, Vereador, Deputado.
Não é um cargo, é um encargo que temos o poder de dar a alguém. Seja qual for o Governo, esteja quem estiver no Parlamento, fica com este encargo, dado pelo referendo, de mudar as leis de acordo com o referendo. Mas só se mais de 50% puserem o voto na urna, domingo que vem.

Ter opinião é pensar. Pensar por nós mesmos, com a nossa memória e nossa esperança, uma espécie de memória ao contrário, a gente a lembrar-se do que ainda não aconteceu.
Memória do que passámos e soubemos que outras pessoas passam, naquela parte da vida de cada um que devia ser privada, íntima, resultado de escolhas pessoais e intransmissíveis, aberta ao apoio e à amizade, mas fechada à coscuvilhice e à tirania. Decisões tomadas com consciência, mas sem pavor. Com conhecimento e tranquilidade. A tempo.

Votarei SIM. Faço campanha pelo SIM.
Tenho memória, lembro-me de tantas conversas, tantos casos, tão diferentes uns dos outros e tão parecidos no respeito que merecem.
Tenho conhecimento. Sei que todos os métodos podem falhar, e que nem sempre conseguimos apanhar a tempo as rédeas da nossa vida, há muitas coisas que às vezes não são o que parecem.
Tenho esperança, não há-de ser sempre assim cruel esta terra, nem as suas leis tão toscas, sobretudo para quem é mais pobre, com menos conhecimento, com vidas mais precárias, com aflições muito suas. E que merece o mesmo respeito que aqueles e aquelas com mais recursos materiais ou mais felicidade, ou mais fé...

Espero que o SIM ganhe, por todas as meninas que agora ainda mal gatinham, que já nasceram, e por quem me sinto responsável, pelo simples facto de serem os crescidos, como eu e vós, leitores e leitoras, que lhes preparam o futuro.
Espero que o SIM ganhe, por todos os meninos que as hão-de amar, e ser amados por elas. A felicidade de uns ganha com a serenidade das outras.

Deixaremos de sentir a surdina e o silêncio do aborto clandestino, em más condições de saúde na sua realização e, também, no momento da sua decisão.
Só procura ajuda, só conversa sobre o que lhe dói aquele, aquela, que acredita que alguém ouvirá com atenção e sem preconceito nem hipocrisia.
Ganhando o sim, quem decide não interromper a gravidez mantém, intacta, a sua liberdade de o fazer. Ganhando o não, só é consentido um caminho, e negado o respeito a quem não o seguir. Despenalizar é isso mesmo: despenalizar, acabar com a situação actual que castiga as mulheres e nos envergonha a todos e a todas.

Podemos, devemos, havemos de continuar a trabalhar e debater depois do referendo muita coisa da vida de toda a gente, muita maneira de fazer este País muito melhor do que é. Cá estaremos.

Domingo que vem, usemos a democracia para mostrar que temos opinião, que encomendamos a quem o deve fazer leis mais justas, um país onde haja direito à saúde e à liberdade, onde seja melhor viver. Todos os dias. Mesmo naqueles em que há problemas difíceis, pessoais, intransmissíveis. Mesmo para aqueles, aquelas, que não pensam como nós.

sábado, janeiro 27, 2007

Sim no referendo, com humor


SIM. Argumentar é preciso, vamos a isso!

Tenho vergonha de uma lei que condena as mulheres a penas até três anos de cadeia porque decidiram abortar. É um problema grave, eu sei. Não se resolve com a despenalização, também sei. De resto não sei mais nada. Não sei nada da vida e tenho perguntado às coisas vivas. Não sei nada da consciência e tenho estudado o Sistema Nervoso Central. Não sei quando as coisas começam ou acabam. Não sei nada dos outros. Vejo o sofrimento e como somos desiguais no sofrimento. E vejo os que sabem e os que julgam que sabem e agradeço-lhes a convicção e o esforço que fazem para que a luz da sua sabedoria se derrame também sobre os que não receberam a graça. Mas enquanto não é tempo, suspendamos os juízos.

Da Natureza do Mal
e também do
Blog do SIM

Assim leio, lemos, nos lemos.
Melhor não digo hoje, e aqui vou repicando o SIM, como posso, para que dia 11 se vire a página, juízos suspensos, respeito entre nós activo. Mesmo.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

POSIÇÂO PELO SIM (2006)


No referendo do aborto, também tratado de despenalização da IVG até às 10 semanas a pedido da mulher e em condições dignas de humanidade e saúde pública. Já agora.

domingo, setembro 17, 2006

Animal Sideral

Sair contra o vento é arte de texugo e de animais que se acautelam dos predadores.
O vento é amigo dos fracos, quando são inteligentes. Ou, afinal, quando são fortes.

Bem me parecia.
Se tantos barcos inventámos, havemos de conseguir sobreviver.

'bora fazer cataventos para haver pouco engano na direcção.

sábado, setembro 16, 2006

Lugar de ler

Jardim Público de Vila Franca de Xira
Tejo (suposta Reserva Ecológica do dito)
Agosto 2006
Foto minha, com o fantástico Nokia

Sem piedade! A eles!

Folha - Você diz que os escritores são uma espécie de subespécie de leitores. O leitor ocupa para você um posto mais elevado na literatura?

Manguel - É claro! Um escritor escreve seu livro e quer que ele seja lido. Pensa que esse livro tem um certo conteúdo, uma certa importância, mas, no final, são os leitores que decidem algo que esse escritor não pode suspeitar. Essencialmente, é o leitor quem decide o que é o livro, se esse livro vai sobreviver e, ainda, se esse escritor vai sobreviver. Todo escritor quer ser um clássico. Mas os leitores são impiedosos e decidem que só uma pequeníssima parte dos que escrevem serão recordados. O poder do leitor é imenso.

Publicado em 30.08.2006
Rematado para o lerdololer por via do Plano Nacional de Leitura

Retorno a 1996, 5 de Janeiro - a gente acreditava, acreditou, acreditasse!


CARTA DE DIREITOS DO ALUNO NA ERA DA INFORMAÇÃO


Os nossos estudantes estão perante um futuro rico em informação onde a mudança será uma das raras constantes da sua vida. Para se adaptarem e desenvolverem plenamente o potencial de cada um, terão de ser capazes de aprender ao longo de toda a vida, e de tomar decisões de forma autónoma.

Acreditamos que todos os estudantes têm direito a poder:

  • dominar as competências necessárias ao acesso à informação, qualquer que seja i suporte em que se apresente (impresso, não impresso, electrónico);
  • compreender e dominar competências eficazes na pesquisa da informação e na sua presentação;
  • desenvolver a sua capacidade de avaliar, seleccionar, sintetizar e utilizar informação proveniente de diversas fontes e diversos media;
  • utilizar os dados e a informação para alargar a sua base pessoal de conhecimentos;
  • explorar a utilização da informação, de forma criativa;
  • compreender a sua herança cultural e a sua História, bem como a Cultura e a História de outras sociedades e grupos sociais;
  • melhorar a sua capacidade de auto-conhecimento, aprofundando o gosto e o prazer da leitura;
  • explorar valores e crenças dos outros lendo obras de todo o mundo;
  • pensar criticamente, e tomar decisões com base quer nas necessidades e nos valores de cada um, quer na evidência dos factos;
  • participar activamente nas decisões relativas à sua própria aprendizagem
A informação é um componente vital no desenvolvimento do pensamento crítico e na tomada de decisões autónoma, e, assim, o acesso a um corpus de informação disponível que não cessa de aumentar é vital para o desenvolvimento do potencial de cada aluno.

Acreditamos, por isso, que todos os alunos devem ter direito a:
  • ter acesso, para a sua aprendizagem, a um amplo conjunto de recursos (impressos, não impressos, electrónicos), de nível adequado;
  • explorar materiais que exprimam variedade de opiniões e de perspectivas;
  • escolher livremente o que lêem, visiona e ouvem, para os seus estudos ou para os seus tempos livres.
Aprovado pela Direcção da Associação Canadiana de Professores-Bibliotecários (Teacher-Librarians Canadian Association) em 10/09/05.

Divulgado pela IASL (International Association of School Librarianship) – www.iasl-slo.org

Trad. M. José Vitorino (1996), a partir das versões em inglês (1995) e francês(1996)

Incluído na documentação distribuída aos participantes (700) do I Encontro Nacional sobre Documentação e Informação na Escola, org. BAD, Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, 4-5 Janeiro 1996
in Cadernos de Biblioteconomia, Arquivística e Documentação, 1996 (2), p. 65-66. / ed. BAD Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas

10 anos, 9 meses e alguns dias depois...

Carta de Direitos das Bibliotecas Escolares e Outras Unidades Documentais nas Escolas Portuguesas

Apresentada pelo Grupo de Trabalho Documentação e Informação Escolar (GTDIE) da BAD no
I Encontro Nacional sobre Documentação e Informação na Escola, org. BAD-GTDIE1, Lisboa, Fundação C. Gulbenkian, 4-5 Janeiro 2006


Direito à vida
Não basta uma tabuleta na escola a dizer "BIBLIOTECA"...
Direito a crescer
são necessárias condições materiais e humanas para haver esperança de vida
Direito à qualidade
onde caibam investimentos e projectos...
Direito à dignidade
ambições e exigências
Direito à igualdade
para que se sirva quem procura e se cative quem passa ao lado
Direito à liberdade
porque só espaços sem censura e de acesso aberto podem criar cidadãos livres e autónomos
Direito à diferença
iguais e diferentes.

Direito à vida
É reconhecido o Direito à Existência de Biblioteca ou Outra Unidade Documental em cada uma das escolas e centros educativos portugueses, independentemente da sua localização geográfica, data de fundação, nível, grau ou tipo de ensino

Direito a crescer
É reconhecido o Direito a Crescer às Bibliotecas Escolares, Mediatecas Escolares, Centros de Documentação e Informação ou Centros de Recursos escolares, pelo que serão dotados de meios adequados ao desenvolvimento de projectos, incluindo recursos humanos, materiais e financeiros, de forma a que se possa ir construindo uma Rede Nacional de Leitura Escolar, a partir de Redes Locais e em colaboração com as bibliotecas e outras unidades documentais.
Pelo mesmo Direito a Crescer lhes facultarão as entidades competentes autonomia de aquisição de fundos documentais em diferentes suportes.

Direito à qualidade
É reconhecido o Direito a à Qualidade, pelo que se desenvolverão políticas que promovam:
1.espaços, equipamentos e fundos documentais específicos e adequados;
2.gestão de pessoal consentânea:
a) criação e preenchimento de quadros de pessoal não docente qualificado afecto a este sectos, nas Escolas e nos Centros educativos do Pré-Escolar, Básico e Secundário;
b) Formação Acrescida, Inicial e Contínua, de docentes, dirigida a este campo de trabalho

Direito à dignidade
É reconhecido o Direito à Dignidade das Bibliotecas Escolares, Mediatecas Escolares, Centros de Documentação ou Centros de Recursos escolares, pelo que são explicitamente consideradas em todos os documentos legais e administrativos enquanto estruturas autónomas, integradas na gestão educativa local e regional, necessárias ao pleno desenvolvimento da aprendizagem e indispensáveis ao bom funcionamento da Comunidade Educativa. Deverão as entidades competentes desenvolver uma política de informação e sensibilização de forma a valorizar a imagem da Biblioteca escolar e das suas congéneres, junto da opinião pública em geral e dos agentes educativos em particular, nomeadamente os orgãos de gestão pedagógica das escolas e de administração do sistema educativo, a todos os níveis.
De forma a preservar a Dignidade, deverão ser banidas as práticas de censura dos fundos documentais e de humilhação do papel da Documentação nas escolas.

Direito à igualdade
Todas as unidades documentais escolares são consideradas iguais, não podendo ser discriminadas pela sua localização geográfica, pelo nível, grau ou tipo de ensino em que se integram, ou por outros motivos. Dever-lhes-ão, assim, ser garantidas condições de desenvolvimento em conformidade com este princípio, de modo a que em qualquer delas se possa atender às necessidades dos utilizadores e tratar a documentação e tratar a documentação e a informação em qualquer suporte com igual eficácia.

Direito à liberdade
Fica consagrado o Direito à Liberdade, eliminando-se qualquer forma de censura, defendendo-se o livre acesso e a autonomia de utilização e produção de documentos e de informação como princípios orientadores.

Direito à diferença
É reconhecido o Direito à Diferença. Cada biblioteca, mediateca, ou outra unidade documental escolar deve poder desenvolver-se com autonomia de acordo com projectos adaptados à sua realidade escolar e extra-escolar, garantindo-se normas técnicas mínimas de funcionamento e o princípio do primado do pedagógico sobre o administrativo.


in
Cadernos de Biblioteconomia, Arquivística e Documentação, 1996 (2), p. 67-69. / ed. BAD Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas

A Comissão Organizadora do Encontro de 700 pessoas (ai saudades!): António José Pina Falcão (Presidente), Alda Vicente, Ana Maria Pessoa, Lúcia Branco, Lucília Santos , Maria José Malo, Maria José Vitorino, Natália Caseiro, Rosa Costa. Reencontrámo-nos quase todos há 2 meses, na Gulbenkian de novo, para a Conferência Internacional da IASL, a primeira em Lisboa, e a mais concorrida de todas as europeias - 460 pessoas, sendo 250 portugueses.
Também apresentámos uma tradução portuguesa da Carta dos Direitos do Aluno na Sociedade de Informação - nesse tempo ainda não sentíamos falta da cautela "e do Conhecimento"...

Segunda-feira 25 de setembro mais umas centenas (com reincidentes) se juntam no mesmo local, abençoado pelos Jardins mais bonitos, para ouvir entre outros o fabuloso Alberto Manguel. Logo às 10 h da manhã. Viva!

A capa reproduzida é de uma das obras de Manguel traduzidas em português, por Ana Saldanha para a Presença nos idos de 1998. A Presença não revela o nome do designer responsável, mas concede informar que se trata de uma reprodução de uma pintura de Gustav Adolph Hennig (1774-1851), Rapariga a Ler, que está no Museum der bildenden Künste, em Leipzig, Alemanha.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Ler devia ser proibido

Criado e produzido por Luciano Midlej, Filipe Bezerra e Marcos Diniz. Adicionado ao youtube en Julho de 2006 pelo primeiro dos autores. Agora que temos Planp, mercados, interesse e interesses, teremos, fatalmente, campanhas. Aqui está pois uma boa idéia... ler devia ser proibido. Fez-me sorrir, o que, como se sabe é quase tão perigoso como rir, e também já houve quem proibisse. Ou tentasse, pelo menos. Boas leituras e belas trangressões nos esperam.

Cucurrucucu Paloma

Caetano Veloso - Habla con Ella

Eis-me de volta, chegadinha do Youtube. Inesquecível Caetano no filme de Almodovor, Cucurrucu do nosso coração. E da nossa pele, que Eros aflora que se farta neste compasso de tirar a respiração.
Ler até ao penúltimo suspiro, esse, exactamente, em que estás pensando agora.

domingo, janeiro 01, 2006

RECEITA DE ANO NOVO

RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

sábado, outubro 08, 2005


Retomo a escrita, a partir do meu lugar, estas margens do Tejo a que alguns chamam Lezíria e outros oportunidade imobiliária. Terras e águas de voos rasantes, como a da imagem, de resto disponível no site da Câmara Municipal, com autor anónimo e beleza imensa. Assim, na largueza, aprendíamos a respirar. Por isso me doi tanto que nos cortem o horizonte, alimento das asas. A quem tiverp aciência de ir lendo, vou avisando que não há grande selecção a não ser a do momento e do coração, neste caso o meu. Posted by Picasa

segunda-feira, setembro 26, 2005