terça-feira, março 08, 2005

Poucas, muito poucas as palavras

Antologia de O Mal: Amalia Bautista
Com vénia para o Luís e os leitores

Al cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdad nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazón, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
Al cabo son poquísimas las cosas
que de verdad importan en la vida:
poder querer a alguien, que nos quieran
Y no morir después que nuestros hijos.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005


Ulisses, o Príncipe Valente, o tempo Posted by Hello

Passar das horas, segredo de ler

A INFÂNCIA

Era uma nebulosa
com seus silêncios
percorrendo todos os espaços
da memória

Ou talvez uma anémona
ainda brilhando devagar
num manto de cor
no fundo do mar

No céu cantavam milhafres
entre a alegria e o medo
vasculhando a noite com o poder
das suas asas
em busca de alimento

Mas eram sobretudo o vento
as papoilas vermelhas no monte
e os vinhedos do vale
o gosto da cana-de-açucar
mastigada às escondidas
e os livros de aventuras
os mistérios que o tempo nos trazia

Havia quem dissesse
como era boa esta infância

Nós só procurávamos a sombra
debaixo das latadas
para acompanharmos as viagens
de Ulisses ou do Príncipe Valente
e deixar passar as horas
até chegar outro dia

José António Gonçalves
(inédito.17.02.05)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005


Entre ler e fazer, ouvir e não entender (ai a campanha para Regedor da Pátria que nos cerca!), revisitei um amor antigo, a publicidade e os seus ardis subliminares. Bela imagem, não acham? Posted by Hello

sábado, fevereiro 12, 2005

Ver desafios onde outros veem destinos

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, numa entrevista a Flávio Aguiar, da Agência Carta Maior, apropósito dos Foruns Mundiais:

"Existe uma identidade indissolúvel entre o fim e os meios. Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes, em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável.
Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-la. Não é assim.
Não vemos a realidade como um destino, mas sim como um desafio. Ela está nos desafiando. A definição de quais são os meios para enfrentá-la é um ponto mais complicado. Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objetivos em nome de seus objetivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem. Você procura você no espelho e não percebe que não está lá”.

Dá que pensar, não é?

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Dispender com a leitura como o fazem com outras "recreações"?


Newspapers will presumably continue until television technique reaches a higher level, but apart from newspapers it is doubtful even now whether the great mass of people in the industrialized countries feel the need for any kind of literature. They are unwilling, at any rate, to spend anywhere near as much on reading matter as they spend on several other recreations. Probably novels and stories will be completely superseded by film and radio productions. Or perhaps some kind of low grade sensational fiction will survive, produced by a sort of conveyor-belt process that reduces human initiative to the minimum.

(in "The Prevention of Literature", George Orwell)

posted by Draw at 3:31 PM no blog O Esquema

Imelda, a fabulosa actriz de Vera Drake Posted by Hello

Vera Drake

http://jornal.publico.pt/publico/2005/02/04/Y/TADES01CX01.html

Artigo notável de Maria José Oliveira, sobre o filme Vera Drake.
Se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento, diz ela, e mais coisas.
O filme vale a pena e dá vontade de escrever e falar e contar desta terra onde o que em Inglaterra há 50 anos ainda havia, aqui, e hoje, em modo pior mesmo que na Irlanda e na Polónia, ainda (!) há.
Como em qualquer leitura, ouvir contar pode entusiasmar, mas não substitui o individual olhar e entender. Isto vale para o artigo e para o filme, claro.

Também eu!

Como gostaria de ser recordado?

Que me recordem como alguém que foi feliz na sua profissão - fiz o melhor que soube sempre com imensa alegria.
(memória de Canto e Castro, actor recentemente partido daqui, em entrevista à Pública)

domingo, janeiro 30, 2005

A língua esquecida

A leitura é uma actividade de linguagem e é lendo (por que mistério o esqueceremos?) que se forja o amor pela língua. Mas a maioria dos leitores, crianças ou adultos, leem e prendem-se a um livro pela história que ele conta e de forma alguma pela língua que canta a história. Porque leem depressa demais. A aceleração do progresso no domínios científico, cultural e técnico, a acumulação dos conhecimentos impoem a leitura antes de mais para decuplicar o seu saber: é preciso, assim, ler depressa para estar mais e melhor informado. (...)
Mas esta necessária leitura do sentido, leitura rápida, torna-se a única maneira de ler. Mesmo num romance, os leitores procuram a história, a sequência de acontecimentos e já não as palavras, o estilo, a poesia. A produção literária cola-se de resto cada vez mais a este tipo de leitura: já que é necessário ler depressa, a escrita funciona na base de lugares comuns, sinais convencionais, códigos, sempre idênticos para que o leitor os identifique e compreenda facilmente. Pouco importa como é dito: o que conta é a trama. (...) Um outro tipo de leitura é a leitura que dá atenção à língua "Eu, que sou um leitor lento; eu leio todas as frases, eu leio musicalmente."

O livro é como uma partitura musical. (...) Leitura do sentido, leitura da língua: o adulto tem necessidade destes dois tipos de leitura.
A criança, ela, deve aprender, não apenas a ler, mas, com a leitura, a manejar uma língua.

in L'enfant lecteur. Autrement. Série Mutations. Nº 97 (Março 1988), p. 21-22 - ISSN 0751 0144. Traduzido do francês

quarta-feira, janeiro 26, 2005


Saraband / Bergman. Fotograma não sei quantos: Três vozes de mulheres (uma na carta) Posted by Hello

No meio do caminho

tinha uma pedra
tinha uma pedra
no meio do caminho

Acho que é um poema do Carlos Drummond de Andrade, que nos força a reparar. No caminho. Na pedra.
Como o filme do Bergman, Saraband . Recomendo. E vou rever. Força-nos a reparar em nós, pedra e caminho. E de como a educação para a solidão é essencial, e impossível de escolarizar.
Até que nos serenamos sabendo-nos pedra, caminho e meio. No meio. Nada começa nem termina em nós.

Ohoh

E afinal chegou o frio. Escolas e bibliotecas tão frias!
E ainda me lembro como são demasiado quentes em tantos verões...
Será impossível, no século vinte um, projectar melhor os edifícios para este clima em mutação? Usar painéis solares que poupem os rios de euros de kilowats em aquecimento ou ar condicionado? Pelo menos, procurar soluções que climatizem os espaços de aprender para todas as crianças.
Mesmo assim, trabalha-se em projectos. Como se tudo fosse possível, cautelosamente, arrojadamente.
Às vezes um bocadinho descrentemente. Mas, pelo menos hoje, sempre com bom humor. Ah gente do Ribatejo, muito me consolais dos quilómetros sem fim. Mesmo que ainda surjam vozes mais interessadas no imediato - os recursos a crescer, quando e quanto - que no essencial - para quê e como os utilizar, em que dificuldades dos meninos e meninas podem assentar, e até onde as poderão ajudar a resolver.
Para que daqui a 20 anos os alunos de agora, directores de escola então, sejam mais afirmativos nas condições de aprender e de criar. E já não haja frio que rache nem calor que desanime.
Ohoh!

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Os portugueses acham muito e investigam pouco

Frase de Inês Pedrosa, na revista Única do Expresso de 22 de Janeiro, num saboroso artigo "Ideias peregrinas-I", a propósito de um estudo divulgado na imprensa sobre a opinião dos portugueses - as crianças sofrem muito com as mães que não estão em casa - e isto num país em que a investigação afirma (não apenas por achamento, mas por verificação) que a maior parte dos casos de maus tratos e abusos sobre crianças ocorre em situações em que a mãe está em casa.
Portuguesa ela também Inês não concretiza a fonte dos dados, e já agora era útil que o fizesse.
No entanto, levanta esta frase uma inquietação que todos sentimos - a de como combater ideias feitas ou promovidas pelo que se "acha", num senso comum promovido rapidamente a bom senso incontestável, iliteracia militante e manipuladora.
Nas bibliotecas, na promoção da leitura e das literacia. também há campeões do achamento. Resista-se pois aos achados, sobretudo quando nos são simpáticos, e invista-se na verificação rigorosa. Os jovens agora não leem... no meu tempo é que se aprendia muito... Ultrapasse-se a consolada fase contentinha e olhem-se os valores crescentes de obras para jovens compradas, requisitadas em bibliotecas... sem desviar os olhos das respostas patetas a perguntas simples ou também elas patetas (quem é que se lembra de repente do nome dos reis de Portugal numa situação de comoção como é a de saber que se entrou na universidade depois de meses e meses de agonia? e o que é que isso prova? que se despachou uma reportagem em 10 minutos sem se tratar tema nenhum?)
O artigo da Inês?
Ah, gostava de o ter aqui, claro, mas comprei o jornal - nao me apetece pagar outra vez o mesmo para ler on-line e descarregar o texto - e ainda não tive tempo de o digitalizar.
Procurem na biblioteca - quem sabe está lá, e a custo zero, e ainda por cima sem ter de dar o nome para bases de difusão de publicidade.

domingo, janeiro 23, 2005


Lemos o que vemos ou no que olhamos o que pensamos? Posted by Hello
Links do meu dia a dia
Rede de Bibliotecas Escolares
THEKA


Primeira noite

Blogue lerdo ler. Para apontar e inscrever ideias e faltas delas, de ler, do ler, do lerdo - vagaroso em português antigo, às vezes também com sentido de inapto para compreender, lento no entendimento, algo preso nas voltas do pensamento.
Tartaruga pois nos caminhos da filosofia, pachorrentamente me queria na vida e no imaginar.
Ler também porque disso quase faço ofício, em peripécias diárias para criar bibliotecas ou nelas viajar, e com outros em conversas combinar estratégias de crescimento, e , quase sempre - felizmente! - humor...
Iniciação neste mundo blogueiro, forma de escrita "à moderna", caderno de apontamentos que não pesa no bolso e se apanha em qualquer ciberponto, e se perde em qualquer capricho de agora já não me apetece.
Convite aos que disto gostam ou não gostam e ainda não perderam o prazer do ABC (o das letras de ler, e ainda o que em castelhano afugenta bispos espanhóis...)


UNESCO transit Posted by Hello

Experimentar Posted by Hello