quinta-feira, junho 02, 2005

Da minha terra vê-se a língua, ouve-se o mar


Foto retirada de espaço público da Câmara Municipal

Sentei-me à beira do Tejo

A ouvir a gente falar
Da terra, dizemos Campo
Ao rio, chamamos Mar Posted by Hello

Pôr a Língua de Fora é Booooooom!

Notícia: galardoados com o Prémio em 2005 - já se sabem 2 categorias

Prémio Príncipe de Astúrias da Cooperação Internacional
Simone Veil

Prémio Príncipe de Astúrias da Comunicação e Humanidades
Alliance Française
Società "Dante Alighieri"
British Council
Goethe Institut
Instituto Cervantes
Instituto Camões

Apesar das críticas justas a fazer a cada um dos Institutos, é de aplaudir o Prémio conjunto a quem cuida de promover Língua e Cultura para lá das fronteiras políticas, e a opção por incluir 6 línguas diferentes, pelo menos. Curiosidade: como trata cada um destes Institutos os idiomas minoritários/regionais e os crioulos/variantes?
Já agora, esta é uma alegria Simonetta

Língua à vista

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.

Vergílio Ferreira

quarta-feira, junho 01, 2005

Bi-empréstimo sobre os indexes

A Human Events on line
publica uma lista dos 10 livros mais perigosos dos séc. XIX e XX. Sendo a revista conservadora e americana, não é de estranhar encontrar Nietzche, Marx, Keynes (10º) e Darwin entre os terríveis autores. Dewey, o da Educação e Democracia, tam bém não escapa. Reparem no fundamento:

"In
Democracy and Education, in pompous and opaque prose, he disparaged schooling that focused on traditional character development and endowing children with hard knowledge, and encouraged the teaching of thinking “skills” instead."


Thinking skills: capacidade de pensamento crítico, terrível doença que hoje mata tanto como o cancro, a sida, a fome... Que seria de nós sem estas luminárias? Que vai ser feito de nós com Poder nas mãos de leitores de tal calibre?
O link no título do "horroroso" panfleto revela no entanto uma outra face - remete para a Amazon, que vende ainda hoje o livro...
Mais um índice de livros perigosos para os bons costumes, nos inigualáveis EUA
Notícia no Bicho carpinteiro, comentário aguçado no Barnabé
Porque será que há tanta gente piedosa que quer velar pelo entendimento alheio, sem confiar minimamente na capacidade de cada um ler e criticar?

terça-feira, maio 31, 2005

A propósito do NON - Pedi emprestado ao Bicho Carpinteiro

A Trapalhada Europeia

Qualquer coisa me diz que o NAO em França acabará por ser positivo para o triunfo de uma visão mais à esquerda da U E. e para um melhor relacionamento emtre os Estados-membros.
Desde1992 que se assiste a uma fuga para a frente sem ter em conta o estado da opinião nos diferentes países. A arrogãncia com que os convencionais sem mandato chamaram Constituição ao presente diploma acabou ontem. O povo de esquerda em França desautorizou a sua representação na convenção a começar pelo seu presidente, o tambem françês Giscard D'Estaing. Mas PR, Chirac, governo de direita e PS de François Hollande tambem sofrem na respectiva proporção. Laurent Fabius é o grande vencedor à esquerda pois teve a coragem de se desatrelar da carruagem onde viajam pela Europa fora os socialistas passivos ou pacientes.
As causas da vitória do Não em França não são só internas.Longe disso. Desde 1992 que aumentou a insegurança das populações e a desconfiança entre Estados dada a mutação permanente de objectivos e de regras na U E. O último alargamento foi conduzido sem nenhuma espécie de racionalidade.Os inimigos da U E não teriam feito melhor.
Em Portugal os reciclados de várias aventuras agarraram-se à dogmática europeia com fervor. Haverá agora mais pensamento crítico entre nós?

segunda-feira, maio 23, 2005

Amina não sabe ler

Uma menina chamada Amina que não sabe ler, que me faz apertar o coração. Menina e mãe, aguarda a morte num país em que as mulheres, como diz o Daniel, são um pano negro com dois olhos.
Neste mesmo mundo, à distância de umas horas de avião, a vida que tão poucos defendem, ou tão mal se defende. Apetece gritar, e ninguém grita, apetece chamar e ninguém chama... ecos de um poema da minha infância, rastos dos olhares que tantas vezes encontro, menos pano negro por fora, cheios de lutos por dentro.
Amina não sabe que eu sei dela, e tudo isto afinal é pouco demais para transformar as coisas.
Nunca deem o nome de Amina a uma menina. Lembra esta, de Sanaa, Iemen, condenada por um crime que não cometeu, por ser fraca e mulher, e a outra, a da Nigéria, condenada por ser mulher e não cumprir a sharia, ou lá o que os homens da terra dela querem que haja para confirmar que as mulheres são fracas e perigosas. Gritem o nome de Amina, que não sabe ler, como milhões de mulheres no planeta. Nestas coisas da leitura e das condenações à morte, as mulheres detêm a maior cota. Ainda. E o mundo é certamente muito pior por isso

domingo, maio 15, 2005

Leitura partilhada - vale a pena visitar este blog, com moderação

Maleitas do Leitor Compulsivo

«Tanto naquelas leituras se enfrascou, que as noites se lhe passavam a ler desde o sol-posto até à alvorada, e os dias, desde o amanhecer até ao fim da tarde. E assim, do pouco dormir e do muito ler se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juizo.» (capítulo I)

Nessa altura seria aconselhável que os livros fossem postos à venda com uma etiqueta "leia com moderação. Leitura compulsiva pode secar-lhe o cérebro e fazer de si um cavaleiro andante"...

Está no blog Leitura partilhada, que agora a anda a ler Dom Quijote, esse mesmo, o de Cervantes
Sobre o autor e a obra:
Fundación Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
Proyecto Cervantes


segunda-feira, maio 09, 2005

Questionário de Leeds

(Desafio do Mal)

1-Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Sairia do Farenheit, ou escrevia de cabeça mais livros. Recuso a ideia de monoleitura: no mínimo, estéreo

2- Já alguma vez ficaste perturbado por uma personagem de ficção?

Sim, muitas vezes

3- O último livro que compraste?

O gato e o escuro, Mia Couto (para dar)

4- O último livro que leste?

O medo de existir, José Gil


5- Que livros estás a ler?

As lições dos mestres, George Steiner

Evidentemente, António Nóvoa

6- Seis livros que levarias para uma ilha deserta?

Alice no País das Maravilhas, L. Carroll
Os livros de Coetzee
O Quixote, Cervantes
O princepezinho, Saint-Exupery
Os poemas da Sophia
Autobiografia, Agatha Christie
1+1=1, Almada Negreiros
São mais de 6? Não faz mal, dão-se ou perdem-se sempre alguns pelo caminho....

7 – Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?

Ao Miguel Horta, ao Zé Sousa Dias, à Aninhas. Porque leem sempre de mais maneiras que eu

Sejas Feliz


O Tejo quase de noite
No rio Tejo, que passa perto da minha casa, há um bote que se chama Sejas Feliz
Posted by Hello

Ler como se tudo tivesse sido escrito de outra maneira?


Manhattan, 1609 - assombrosa história de leitura sub-actual, agradecendo ao Barnabé pela indicação. Às vezes quando vejo o Tejo de noite, ainda me parece assim o mundo Posted by Hello

quarta-feira, maio 04, 2005


Há dias assim, capazes de cerejas! Posted by Hello

Ler-se por benefício de catástrofe suspensa

A minha filosofia de vida alterou-se recentemente devido a uma doença grave a que sobrevivi.
Dantes, a frase «nunca ninguém se arrependeu à hora da morte de não ter passado tempo suficiente no escritório» era uma pequena verdade engraçada; agora é uma evidência.
Sou professor e gosto de o ser. O produto do meu trabalho é a interjeição «ahá» proferida por quem não entendia uma coisa e agora entende. Não sei qual é o valor de mercado dessa interjeição, por isso não posso dizer se sou bem pago ou mal pago.

no blog do zé luís, professor hobbesiano

sábado, abril 30, 2005

sinais de vida

The personages in a tale shall be alive, except in the case of corpses, and the reader shall always be able to tell the corpses from the others. (Mark Twain)

domingo, abril 24, 2005

Ler a vida para inscrevermos outra

Demora tudo

A pasta de dentes,
o gel de banho,
a manteiga, o pão de forma,
quando se vive sózinho,
a botija de gaz,
o terço entre os dedos,
o calgonite,
demora tudo,
o esfregão da louça,
o fim-de-semana,
o meio-do-mês,
as prestações do carro,
muito tempo,
o aperto do laço,
as dores do período,
o absinto, a ginginha,
as pilhas do transistor,
o alprazolam,
a falta que me fazes,
a acabar.

domingo, abril 17, 2005

ler é coisa lá de casa - ou não é!


"Depois de viver muito e prestar muita atenção na vida e nos vivos é fácil perceber que as pessoas mais criativas, mais felizes, mais produtivas, mais bem ajustadas ao mundo tiveram uma infância povoada pelos livros.

Estou seguro de que uma infância em que a imaginação tenha sido mais atendida -seja por um avô contador de histórias, seja por um ambiente povoado de livros- ajuda muito o ser humano no seu trajeto pela vida futura. Se o lar é bem constituído e seus componentes se comunicam intensamente; se a família se reúne para conversar, para comentar fatos e coisas, para falar de livros, de filmes e de histórias, para comentar a notícia do dia, a presença da literatura é fundamental para criar pessoas mais felizes. Num núcleo familiar em que isso não acontece, fica difícil para a literatura ter importância. "

(Ziraldo - MAIS, Folha de S.Paulo - 13/08/2000)

Dom Jorge

"Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; no que me diz respeito, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros."

"Ao longo da história o homem tem sonhado e forjado um sem-fim de instrumentos. Criou a chave, uma barrinha de metal que permite que alguém penetre num vasto palácio. Criou a espada e o arado, prolongações do braço do homem que os usa. Criou o livro, que é uma extensão secular de sua imaginação e de sua memória. A partir dos Vedas e das Bíblias, temos aceitado a noção dos livros sagrados. Em certo modo, todo livro é. Nas páginas iniciais de Quixote, Cervantes deixou escrito que recolhia e lia qualquer pedaço de papel impresso que encontrava na rua. Qualquer papel que encerra uma palavra é uma mensagem que um espírito humano manda a outro espírito. Agora, como sempre, o instável e precioso mundo pode perder-se. Somente se podem salvar os livros, que são a melhor memória de nossa espécie."

"Como todos os actos do Universo, a dedicatória de um livro é um acto mágico. Também caberia defini-la como o modo mais grato e mais sensível de pronunciar um nome."

"Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, aquele destinado a seus símbolos. Ocorre então a emoção singular chamada beleza, esse mistério formoso que não decifram nem a psicologia nem a retórica."

Jorge Luís Borges
e mais Borges
e quem o estuda

sexta-feira, abril 08, 2005

Livros eram libres na fala nortenha dos meus maiores

Y vamos llegando al fin,
por abril, pero eso sí...
libros de yedra, libros sin horas,
libros libres;
cada página un día,
cada día el assombro
de ser vino y piedra, aire,
agua, palabra, parpadeo.

Octavio Paz

Ler a par. Livro? Carece não! Está tudo na cabeça da gente Posted by Hello

quinta-feira, abril 07, 2005

Os que leem

Muito longe de serem escritores, fundadores de um lugar próprio, herdeiros dos lavradores de antanho mas na terra da linguagem, cavadores de poços e construtores de casas, os leitores são viajantes; circulam pelas terras do próximo, nómadas furtivos através dos campos que não escreveram, arrebatando os tesouros do Egipto para os desfrutar. A escrita acumula, amontoa, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar, e multiplica sem produção pelo expansionismo da reprodução: a leitura não é uma garantia contra o desgaste do tempo (esquecemo-nos e esquecemo-lo), não conserva. As suas aquisições, e cada um dos lugares por onde passa é repetição do paraíso perdido.

Michel de Certeau

citado in
A ordem dos livros, de Roger Chartier (Vega, 1997)