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quinta-feira, setembro 22, 2016

Somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não | P3

FOLIO 2016



Marta

Cristina

Lena



E a rosa sem nome

 
Enquanto conta a história do homem das segundas-feiras, nunca lhe diz o nome. É só um homem que mata as saudades da mulher com uma rosa, às segundas-feiras, e pronto. 
 

Foto de Marta Poppe, texto de Cristina Nobre Soares, palavras da Lena das Flores, em Óbidos


Somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não | P3

domingo, setembro 18, 2016

Não sabemos ler o mundo



Tudo pode ser página
Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros. 
Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio? 

Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'


sábado, setembro 17, 2016

Olhar e Ler





Ilustração de Jungho Lee, vencedor do World Illustration Award 2016 - Overall Professional Winner.


I'm very delighted and honoured to receive one of the best illustration award in the world. I'd like to share this honour with Sang Publishing.




Escola e Vida. Ser professor

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Hoje começaram as aulas à séria!!!

Comecei o dia a receber um grande sorriso de um menino grande mas bem grande que me informou sob, compromisso de honra, que iria a todas as aulas este ano. Não sem me colocar um braço nos ombros e olhar para mim com um sorriso simpático.  

À Entrada da escola fui recebida por algumas ex-alunas minhas. Entre beijos e gargalhadas até me pediram uma carta de recomendação para o novo professor. Mais à frente mãos levantadas a dizer olá e a sorrir. Dentro da sala …20 meninos muito caladitos, atentos e preocupados. Fomos conversando sorrindo e ficando sérios quando era preciso. Alguns a cara chapada dos irmãos ou dos primos. Consequências da idade e de muitos anos a trabalhar na mesma cidade. Lá fui sendo informada de onde estavam os irmãos, recordada dos nomes e… do que lhes disseram de mim. Achei muito bem. Quem vai para o mar avia-se em terra e assim não tem surpresas. Fiquei a saber ou confirmei que “a minha irmã diz que é uma boa professora mas quando se zanga é a sério”. Também fiquei a saber que “a minha irmã diz que é simpática”. 

Depois do almoço entrei com meninos e meninas que já me conheciam todos… até os repetentes. Foi mais uma aula simpática em que estabelecemos regras e preparámos as coisas para começar o trabalho deste ano. Dei por terminado o dia com o coração cheio de sorrisos e beijocas. 

Quando chego à escola do Manuel, ouço alguém dizer com uma voz bem grossa “ainda é professora?” espantada com a pergunta, olho para o senhor. E lá vem mais uma pergunta “não se recorda de mim?” Pela primeira vez não soube responder. Confesso que tenho visto muitos ex-alunos meus. Muitos passam por mim já homens e mulheres e nem reparam, ou não querem reparar. Eu compreendo. Às vezes poderá ser por timidez, outras porque não me reconhecem ou, então, porque não deixei grandes recordações (não somos perfeitos). Aqui o problema é que eu tinha um senhor de etnia cigana com uma grande barba e um sorriso muito doce a olhar para mim. Tive que reconhecer a minha ignorância e perguntar quem era ele. A resposta foi pronta e com um grande sorriso “eu? sou o António!”. Estava tudo dito! O António Telles, um menino da minha direção de turma, há largos anos, que queria perceber tudo muito bem percebido e que, enquanto não percebesse, não me largava. O senhor confirmou e esclareceu-me que ainda hoje é assim. Falámos sobre a mãe que “está velha”. Apresentou-me a sua “mulher” e depois a sua “pequenita”. Terminámos a conversa por hoje. As últimas palavras que escutei foram que iria esclarecer um senhor amigo que a sua filha, agora a frequentar o 5º ano, estava em boas mãos. 

Foi o melhor elogio que tive em anos. Porquê? Por ter vindo de quem foi e nas condições em que foi.

Bom ano para todos!!!


Carla Morgado, mãe do Manuel
Professora - Escola Pública
Portugal
2016

quarta-feira, setembro 07, 2016

Lermos mais ou lermos menos?



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Cidades e mobilidades - amigas ou inimigas da leitura
Imagem daqui
O que tem a ver a imagem com esta coisa da leitura?
Um "inimigo "da leitura, ou do hábito da leitura, é, além do custo financeiro, o tempo para ler: quem tem tempo livre para tal? Onde há bons transportes públicos, e planeamento urbanístico tendo em conta a qualidade de vida das pessoas, a mobilidade diária de jovens e adultos permite tempo "livre" para ler. Quem tem de conduzir, fica com menos essas horas para ler ou imaginar... isto não é tudo questão de educação, escola, promoção, edição, escrita, mercado, a vida, a vida e o trabalho que nos organizam/desorganizam tem muito que ver.


 "Quanto ao perfil do leitor português por suporte, a investigação desvenda o seguinte:


  • Leitores de livros: perfil feminizado (64% dos leitores são mulheres e 49% são homens), juvenilizado (quanto mais elevado o escalão etário, menor a percentagem de leitores), escolarizado (foi encontrada uma relação directa entre a prática da leitura e o grau de escolaridade: 89% dos leitores de livros completaram o ensino médio-superior), com destaque claro no indicador ‘Estudantes’.
  • Leitores de jornais: perfil masculinizado (91% dos leitores são homens e 76% são mulheres), sensivelmente mais idoso e com níveis de escolarização básico e secundário.
  • Leitores de revistas: perfil feminizado (83% dos leitores são mulheres e 62% são homens), relativamente juvenilizado (a relação entre a prática da leitura e a idade é inversa), com níveis de escolaridade relativamente baixos."


Fonte: Paula Cristina Lopes, p.11
http://bocc.ubi.pt/pag/lopes-paula-habitos-de-leitura-em-portugal.pdf

Amanhã, dia 8 de setembro,comemoremos o Dia Internacional da Literacia (ou da Leitura, ou da Alfabetização), afinando as nossas ambições:com o lema de 2016 proposto pela Unesco:

Ler o passadoEscrever o futuroO céu é o limite

terça-feira, setembro 06, 2016

'A resposta está nos nativos digitais', diz o historiador Roger Chartier - Almanaque - Hoje em dia

Roger Chartier é professor de Collège de France, diretor na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e professor visitante na University of Pennsylvania
A noção de “qualidade”  da leitura pode ser muito subjetiva. A questão mais essencial para mim é: como preservar maneiras de ler que construam a significação a partir da coexistência de texto em um mesmo objeto (um livro, uma revista, um periódico), enquanto o novo modo de conservação e transmissão dos escritos impõe à leitura uma lógica analítica e enciclopédica, onde cada texto não tem outro contexto além do proveniente de seu pertencimento a uma mesma temática?
Estas perguntas têm relevância particular para as gerações mais jovens que, ao menos nos meios sociais com recursos e nos países mais desenvolvidos, têm se iniciado na cultura escrita através da tela do computador.
Nesse caso, uma prática da leitura muito imediata e naturalmente habituada à fragmentação dos textos de qualquer tipo se opõe diretamente às categorias forjadas no século 18 para definir as obras escritas a partir da individualização de sua escrita, a originalidade da criação e a propriedade intelectual de seu autor. 
A aposta não é sem importância, pois pode levar tanto à introdução na textualidade eletrônica de alguns dispositivos capazes de perpetuar os critérios clássicos de identificação de obras como tal, em sua coerência e identidade, quanto ao abandono desses critérios para estabelecer uma nova maneira de compor e perceber a escrita como uma continuidade textual sem autor ou copyright, no qual o leitor corta e reconstrói fragmentos móveis e maleáveis.
(...)

Dentro da longa duração da cultura escrita, toda mudança (o aparecimento do codex, a invenção da imprensa, as várias revoluções da leitura) produziu uma coexistência original de objetos do passado com técnicas novas. Pode-se supor que, como no passado, os escritos serão redistribuídos entre os diferentes suportes (manuscritos, impressos, digitais) que permitem sua inscrição, sua publicação e sua transmissão. Resta, porém, o fato da dissociação de categorias que constituíram uma ordem do discurso fundamentada sobre o nome do autor, a identidade das obras e a propriedade intelectual e, de outro lado, o radical desafio a essas noções no mundo digital. Podemos pensar e esperar como Umberto Eco e Jean-Claude Carrière por um futuro no qual existiria uma coexistência das varias culturas escritas. 
Mas acho que a verdadeira resposta não está nos hábitos e desejos dos leitores que entraram no mundo digital a partir de suas experiências como leitores de livros impressos. A resposta pertence aos “digital natives” (nativos digitais) que identificam espontaneamente cultura escrita e textualidade eletrônica. São suas práticas da leitura e da escrita, mais do que nossos discursos, que vão decidir a sobrevivência ou a morte do livro, o apagamento do passado ou sua presencia perpetuada.


'A resposta está nos nativos digitais', diz o historiador Roger Chartier - Almanaque - Hoje em dia

Trabalho forçado. Portugal e Orlando Ribeiro, e nós

Resultado de imagem para RIBEIRO, Orlando. A colonização de Angola e o seu fracasso. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1981
"Nunca como hoje, o trabalho esteve tão distante da satisfação e realização humanas. Nunca como hoje, a ameaça do regresso a formas do passado pré-capitalista nas relações laborais, ilustrou de forma tão absoluta os caminhos possíveis da continuidade da acumulação capitalista. (...) Em Portugal a economia é grandemente devedora do trabalho escravo das colónias e após a abolição jurídica da escravatura em 1878, da sua continuidade através do trabalho forçado. "
Destaco este troço do artigo de Raquel Varela e João Carlos Louçã, publicado hoje, sobre uma questão controversa entre os historiadores - até quando persiste em Portugal o trabalho forçado, tendo sido a escravatura legalmente extinta em 1878, e com que consequências?
A ler com atenção, para pensar mais e melhor. Incluindo a bibliografia, que recupera um dos livros que mais me impressionou sobre Angola, disponível on-line na 2ª ed. revista, preparada por Suzanne Daveau (2014), que nos alerta, carinhosa:

Espera-se que a reedição de mais este livro de Orlando Ribeiro
tenha permitido aos seus herdeiros espirituais abrir-lhe uma larga
audiência perto das novas gerações e de todos os que sabem que o
conhecimento do passado é ferramenta indispensável para conceber
e tentar construir acertadamente o futuro
.
RIBEIRO, Orlando. A colonização de Angola e o seu fracasso. Imprensa Nacional Casa
da Moeda, Lisboa, 1981  
2ª ed., revista, 2014 https://www.incm.pt/portal/bo/produtos/anexos/10253920141029115454084.pdf


TN24_01.pdf

Conversar Buda, dias de Metanoia


Haja bom karma, contra a ganância, a raiva e a ignorância. Seja qual for o estilo e a linguagem, a crença ou o léxico das orações ou dos desejos. Neste caso, com o sorriso e a alegria de Monja Coen, a quem cheguei por mão amiga do Brasil, nesta hora nada fácil.
Bem haja.